A economia que interessa é a economia política

Jean Pisani-Ferri on Project Syndicate

A pre-referendum YouGov opinion poll tells why: “Leave” voters had no trust whatsoever in the advice-givers. They did not want their judgment to rely on politicians, academics, journalists, international organizations, or think tanks. As one of the Leave campaign’s leaders, justice secretary Michael Gove, who is now seeking to succeed David Cameron as Prime Minister, bluntly put it: “people in this country have had enough of experts.”

It is tempting to dismiss this attitude as a triumph of passion over rationality. Yet the pattern seen in the UK is oddly familiar: in the United States, Republican voters disregarded the pundits and nominated Donald Trump as their party’s presidential candidate; in France, Marine Le Pen, the leader of the far-right National Front, elicits little sympathy among experts, but has strong popular support. Everywhere, a significant number of citizens have become hostile to the cognoscenti.

[…]

Most economists, let alone specialists in other disciplines, regard such accusations as unfair, because only a few of them devoted themselves to scrutinizing financial developments; yet their credibility has been seriously dented. Because no one pled guilty for the suffering that followed the crisis, the guilt has become collective.

The second explanation has to do with the policies advocated by the cognoscenti. Experts are accused of being biased, not necessarily because they are captured by special interests, but because, as a profession, they support the mobility of labor across borders, trade openness, and globalization more generally.

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This points to the third and most convincing explanation: while experts emphasize the overall benefits of openness, they tend to disregard or minimize its effects on particular professions or communities. They regard immigration – to which Cameron attributed the Leave campaign’s victory – as a net benefit for the economy; but they fail to pay attention to what it implies for workers who experience downward wage pressure or for communities struggling with a scarcity of affordable housing, crowded schools, and an overwhelmed health system. In other words, they are guilty of indifference.

[…]

In practice, it is often hard to identify the losers and to find the right instrument to support them. To argue that problems can be solved without examining how and under what conditions is sheer intellectual laziness. To tell people who have been hurt that they could have been spared the pain does not give them any less reason to complain; it just fuels resentment of technocratic experts.

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O crime nem sempre compensa, mas nunca tem custos

Esquerda.net

A megaoperação de combate à fraude fiscal apanhou centenas de empresas a recorrer aos mesmos esquemas montados nas sedes dos principais bancos portugueses. O banco propunha a abertura de empresas fictícias no estrangeiro para simular negócios de compra e venda dos clientes, que assim escapavam ao pagamento do IVA e de IRC.

A esmagadora maioria das empresas apanhadas na rede aproveitou a oferta da justiça portuguesa para evitar que os processos seguissem para os tribunais: em troca do pagamento do imposto em falta e dos respetivos juros, o processo fica suspenso por dois anos e é arquivado em seguida se não houver reincidência.

A maior empresa de construção do país conheceu o mesmo desfecho a 5 de maio, revela esta segunda-feira o portal Observador. Os donos da Mota Engil aceitaram pagar 6.1 milhões de euros em duas prestações e já não serão acusados do crime de fraude fiscal qualificada.

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Portugal como campo de batalha

Ricardo Paes Mamede no Ladrões de Bicicletas

A direita europeia, em particular a alemã, tem uma visão sobre o que deve ser a União Europeia.[…] Isto passa, nomeadamente, por: abolir fronteiras, impor uma política de concorrência comum, gerir o comércio externo a partir de Bruxelas, privatizar as empresas públicas, criar uma moeda única gerida centralmente.

Há aqui um problema, porém. É que os países participantes têm situações económicas e estruturas produtivas muito distintas. Isso significa que as políticas económicas que são mais adequadas para uns poderão não sê-lo para outros. Senão forem criados mecanismos específicos para lidar com estas assimetrias, as economias mais frágeis tendem a ser afectadas por períodos longos de recessão económica e crise social, que facilmente se transformam em divergência económica e social permanente.

[…]

No seio da UE, porém, não existem condições para criar mecanismos semelhantes de transferências orçamentais permanentes para fazer face às diferenças de partida entre Estados Membros. Os movimentos nacionalistas nos países do Centro e Norte da Europa afirmam-se, em particular, pela oposição a tais transferências – e poucos governos estão dispostos a desafiar essa oposição neste momento, mesmo que quisessem (e muitos nunca o quiseram). As diferentes preferências nacionais quanto a aspectos centrais como a protecção social, os direitos laborais e o papel do Estado na economia, constituirão sempre um entrave à criação de uma união orçamental robusta no seio da UE.

Como se pode, então, preservar o mercado interno e a moeda única na UE de modo a lidar com as enormes assimetrias no seu seio, sem poder recorrer a transferências orçamentais relevantes? Para a visão dominante na UE, a resposta é clara: as economias mais frágeis têm de estar preparadas para lidar com os piores cenários sem dependerem dos restantes países. Isso significa reduzir o endividamento público e privado de forma permanente, e tornar as suas economias mais flexíveis. Por outras palavras, é preciso reduzir os salários, as pensões, as transferências sociais, os direitos sociais e laborais, de modo aumentar as exportações, atrair o investimento, reduzir a despesa pública e, desta forma, tornar os países mais auto-suficientes.

Posto nestes termos, a estratégia até soa lógica. O problema está nas suas implicações. Na prática, como sabemos por experiência própria, a tentativa de combater as crises através da redução dos rendimentos de trabalho torna as recessões económicas mais profundas e prolongadas. No imediato, isto agrava ainda mais a situação das finanças públicas. Para além disso, a crise afasta o investimento e destrói competências (nomeadamente por vias do desemprego e da emigração), levando a que os supostos benefícios da estratégia seguida tardem a surgir.

[…]

O problema é que cada vez menos cidadãos europeus aceitam esta conclusão. Em países onde a crise se arrasta – com fraca criação de emprego, generalização da pobreza e perda permanente dos direitos sociais e laborais – cada vez mais pessoas se questionam: se é este o preço que se paga pelo mercado interno e pela moeda única, para que queremos afinal a integração económica europeia?

[…]

Manter-se do lado de quem defende soluções que arrastam a crise e destroem direitos sociais e laborais é suicidário para partidos que deveriam defender exactamente o oposto. Perante isto, a social-democracia europeia vai tentando passar a mensagem de que é precisa “mais europa” e “mais união política”. Mas, até agora, todos os “avanços” na integração europeia – o Semestre Europeu, o Tratado Orçamental, a União Bancária, a condicionalidade associada ao financiamento pelo BCE e pelo Mecanismo Europeu de Estabilidade – contribuíram para reforçar a pressão no sentido da perda de rendimentos e de direitos sociais. E às populações dos países em crise interessa muito mais a evolução das suas condições de vida a cada momento do que ideias mais ou menos abstractas sobre o futuro da UE.

[…]

Esta é a luta que está hoje em curso na UE. Portugal não é o centro do debate: Portugal é um dos campos de batalha entre duas visões políticas sobre como lidar com os dilemas europeus no imediato. Em abstracto, poderia ser a França ou a Itália. Mas é mais fácil atacar pelo elo mais fraco. Esse, de momento, somos nós. Porém, apesar de não ser o fulcro da questão, os riscos para o nosso país são mais que muitos.

Ao contrário do que a direita portuguesa quer fazer crer, não são as orientações de política económica do actual governo que põem Portugal em risco. A actual maioria governamental revela um compromisso claro com a consolidação das contas públicas e com a prossecução de políticas que promovem o crescimento económico a prazo.

[…]

A sucessão de declarações de responsáveis alemães e dos seus aliados sobre a aplicação de sanções a Portugal tem ser interpretada à luz do segundo acima factor referido. Tais declarações visam sinalizar uma maior predisposição de quem manda na Europa para “deixar cair” Portugal. O resultado esperado é um aumento dos custos de financiamento que, caso se agravem, só têm dois resultados possíveis: o incumprimento no pagamento da dívida pública (com consequências imprevisíveis) ou o recurso a um segundo resgate (que levaria à imposição das medidas consideradas adequadas para o país).

[…]

A questão é: qual é o interesse do país? Deve Portugal arriscar um confronto com as forças que hoje dominam na Europa? Se isso desembocar num novo resgate, o que ganhamos com isso? E qual o preço que devemos estar dispostos a pagar para o evitar?

[…]

– o país tem de estar preparado para todas as eventualidades, incluindo os vários cenários que decorrem de um resultado indesejável do conflito actualmente em curso na UE (em vez de se limitar a aguardar esperançosamente que as coisas corram pelo melhor).

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Xenofobia também é isto

Esquerda.net

“Eu já digo há muito tempo e não percebo. Por que é que os jovens que procuram formação no sul da Europa não veem para a Alemanha? Na Alemanha as empresas estão desesperadas à procura de formandos e inglês qualquer pessoa pode aprender. Isto era possível”, afirmou Schäuble ao canal ARD, quando questionado sobre o que pensa fazer para combater o elevado desemprego jovem na Europa, e em particular nos países do Sul.

“Podia fazer-se isto de forma muito mais flexível. Fazemos grandes anúncios europeus, mas não conseguimos [trazer] umas dezenas de milhares de jovens de países do sul da Europa, onde o desemprego jovem é elevado”, prosseguiu Schäuble, referindo-se aos contratos de formação – semelhante aos estágios com formação profissional – que estão generalizados na Alemanha.

“Eles [jovens] têm que ser mais móveis e flexíveis. Viajam pelo mundo inteiro, os estudantes estudam por toda a Europa. Por que é que não podemos fazer o mesmo com os formandos?”, questionou Schäuble, lembrando que as empresas alemãs têm falta de mão de obra para estes contratos de formação, que são remunerados com valores abaixo dos contratos de trabalho.

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Os efeitos do Brexit foram manifestamente exagerados

Índice Bolsista do Reino Unido após o #Brexit

Índice Bolsista do Reino Unido após o #Brexit

Não quero com isto dizer ou sequer implicar que não haverá consequências económicas negativas para a opção dos Ingleses, mas a economia é o que é e não o que os amadores dizem que é.

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A Nova União Europeia™ é tão surda e democrática como a anterior

No Dinheiro Vivo

O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, já elaborou o plano para a criação de uma “Nova União Europeia”, em resposta à decisão do Reino Unido de abandonar a União Europeia.

De acordo com jornal económico alemão “Handesblatt”, o plano desenhado pelo todo-poderoso ministro de Angela Merkel apresenta “planos concretos” para a reforma da União Europeia, incluindo a monitorização por uma entidade independente de todas as políticas orçamentais implementadas por cada Estado-Membro, ao invés da monitorização ser feita por um membro da Comissão Europeia.

Com o título de “Iniciativas posteriores ao referendo do Reino Unido”, o plano alemão para a UE passa pela implementação de várias medidas, “incluindo a possibilidade de vetar orçamentos nacionais que violem as regras de estabilidade e dívida”, aponta o “Handesblatt”, que consultou o documento.

Além da monitorização das políticas públicas de cada país por uma entidade independente e do poder de veto sobre os orçamentos de cada país quando a UE entender que podem violar as regras comunitárias, o jornal alemão aponta igualmente que as reformas idealizadas por Schäuble incluem ainda a separação da autoridade de supervisão bancária da esfera do Banco Central Europeu e o reforço dos poderes do Mecanismo Europeu de Estabilização, na zona euro.

O que vale é que as regras são boas e não causaram estagnação na zona euro durante 16 anos, nem puseram vários países dentro da estagnação secular. Viva as regras.

EDIT: Resta saber se os orçamentos da Alemanha (que não cumprem as regras) seriam aprovados.

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A revolução possível contra a elite

Do 365 Forte

A redução do voto no Brexit a uma questão de xenofobia ou provincianismo (o que não quer dizer que não sejam elementos relevantes) é não perceber as dinâmicas sociais: de acordo com as sondagens, foram os denominados “perdedores da globalização” – a classe trabalhadora com pouca instrução – que votaram em maior número no Leave.

Na ausência de um discurso de esquerda, a direita populista de Le Pen, passando pelo Boris ao Trump, são os principais beneficiados deste movimento de insurreição contra as elites no poder (da direita à esquerda da terceira via). Esta camada de população insurgiu-se contra as promessas que durante anos lhes venderam: a globalização e os mercados abertos seriam vantajosos para todos; a austeridade iria promover a confiança e, por via disso, o crescimento económico; o aumento da produtividade tornaria todos mais ricos, e não apenas uma pequena percentagem da população.

Na realidade, assistem a uma estagnação dos salários (no Reino Unido o rendimento médio dos trabalhadores está 7,5% mais baixo que em 2009), desemprego, deslocalização da indústria para o estrangeiro (pela primeira vez o estrangeiro não precisa de ser emigrante para se constituir numa ameaça ao seu posto de trabalho) e uma desigualdade crescente dentro dos países.

Neste contexto, a UE, enquanto veículo que intensifica a globalização, é um dos principais alvos dos políticos que procuram agradar àquele eleitorado. E esta é a ironia do projecto europeu porque a UE é, ao mesmo tempo, uma das poucas instituições que, caso assim queira, pode reduzir os efeitos nefastos da globalização. Será que ainda vamos a tempo? Ou será que – como as primeiras reacções ao referendo parecem prever –  a UE, parafraseando Orwell, vai escolher a estupidez e manter tudo como está?

 

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E depois do Brexit?

No Esquerda.net

E, no entanto, é difícil, porque tudo dá a entender que a reacção da populaça inglesa foi ‘emocional’ e não ‘racional’, como dizia hoje de manhã à BBC uma eurodeputada búlgara.  O entrevistador ainda tentou dizer-lhe, “Mas olhe que as pessoas que votaram, pensaram muito nisso e não são estúpidas.”  Mas a eurodeputada não queria ouvir, já sabia que eles eram uns ignaros e que quem tinha razão era ela.  Vamos mas é vingar-nos desses ingleses, sugeria—opinião, aliás, generalizada na Alemanha e abertamente expressa por esse senhor Juncker (para quem leu história, o nome prussiano do homem até dá calafrios, caramba!).

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Por isso, talvez valha a pena perceber mesmo quem é que votou em quê.  Na Irlanda do Norte, os irlandeses católicos votaram Remain, os unionistas Leave.  Qual a surpresa?  Afinal, apesar da crise, os irlandeses são um dos povos que mais tem ganho com a UE.  A Irlanda é hoje um dos instrumentos mais perversos das políticas europeístas de desvio de fundos públicos para o grande capital internacional.  As grandes empresas estão todas sediadas lá e pagam praticamente nada de impostos e a UE não só deixa que isso se passe como parece até promover esse escândalo.  Ao menos assim, os pobres dos irlandeses sempre se vão arranjando.  Esta, aliás, é uma das coisas que leva os ingleses a votar por sair.

Depois a Escócia.  Votaram todos Remain.  Claro!  Eles conseguiram proteger-se através do seu parlamento regional dos piores excessos perpetrados por estes governos sucessivos (primeiro, os governos militaristas do Blair e depois os governos liderados por este grupo de milionários de Eton, funcionários bancários, cujos pais todos fazem parte da lista dos Panama Papers).  Por isso, a Escócia conseguiu manter intacto o seu estado social, a educação superior é subsidiada pelo governo, protegeram o seu serviço nacional de saúde, reformaram os outros serviços públicos.  Vive-se hoje muito melhor na Escócia do que em Inglaterra—todos os escoceses se honram disso: faz frio, mas vive-se melhor.  Para eles, a UE é a maneira que eles têm de se proteger do assalto dos Tories da City londrina.  Eles não podem dar-se ao luxo de serem governados por essa gente e então votam pela Europa, mesmo até os membros escoceses dos próprios Tories (o partido escocês fez a campanha a favor de Remain).

Em Londres (que constitui uma percentagem importante da população do Reino Unido) o voto foi por ficar.  Claro, não só eles são os que ganham com este governo de financeiros discípulos da Thatcher, como são uma população multinacional que não se identifica com o resto do país.

Restam as cidades menores e os campos em Inglaterra e no País de Gales, onde eles têm sofrido um regime de austeridade quase tão desumano como o português: aí, eles vêem o serviço nacional de saúde e os outros serviços públicos a deteriorar-se diariamente; vêem o desemprego sistémico como forma de vida a longo prazo; e os que querem estudar na universidade chegam à vida adulta com uma dívida absolutamente escravizante que os impede de comprar a sua própria casa e que os obriga a alugar as casas ao grande capital estrangeiro, que tem vindo a comprar bairros inteiros por essa Inglaterra fora (como aliás também tem feito em Portugal com o apoio do nosso governo e da UE).

A propósito: na Alemanha, o ensino superior continua a ser subsidiado integralmente pelo estado; quase não há desemprego jovem; o serviço nacional de saúde é exemplar; e existem políticas para compra de casa.  Os outros não podem, não é?  Interessante.

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Objectivamente, nem os imigrantes são assim tantos, nem criminosos como o inglês comum pensa, nem são os imigrantes que lhes estão a fazer mal.  Mas também é verdade que, sem esses imigrantes, o regime de trabalho instável, mal pago, sem direitos sociais—o regime alemão—a que eles estão a ser sujeitos não teria sido implementável.  São os pobres dos imigrantes e refugiados que fazem de penetras para boicotar os direitos historicamente adquiridos pelos trabalhadores e servir os interesses do grande capital internacional que quer proletarizar os europeus.  Não será isso que está por detrás de toda essa história recente de refugiados na Alemanha?  Será que até os alemães já viram?  As tristes vítimas de guerras, que alguém está a subsidiar, são usadas para promover o subemprego na Europa no interesse desses mesmos que promovem essas guerras.  Nunca jamais os ingleses irão perdoar isso ao Blair.  A tentativa dele entrar nesta disputa do Brexit foi mesmo muito humilhante, como não podia deixar de ser.  Nem os de direita lhe perdoam e muito menos os de esquerda.

[…]

O que é que nos surpreende, então, na conclusão que os ingleses tiraram disto tudo, e que tanto irrita os alemães?  É que eles não parecem estar a pensar como a gente quer que pensem: direita/esquerda; fraternidade europeia; melhores condições para a prosperidade dos mercados financeiros.  Nada disso os move.  Estão, pelo contrário a pensar sem política, a partir do que lhes interessa a eles, de como querem viver.  A Europa, para eles, é um lugar mais quente onde se faz férias, a esquerda há muito que afinal era mentira e a prosperidade financeira da City a eles só lhes tem lixado a vida.  Todos os argumentos económicos sobre como o Brexit ia ser mau para as finanças, passaram-lhes ao lado completamente.  Quais finanças, perguntam, as deles lá em casa?  Não estão as finanças deles pior do que sempre estiveram desde os anos 60?  Assim pensam as pessoas que não estão politizadas institucionalmente.  É normal, não?

[…]

E nós, então?  O problema que o Brexit nos põe a nós, portugueses, é o mesmo que põe a todos os outros europeus das margens.  Que projecto europeu é este?  Temos mesmo é que aprender com os ingleses e começar a pensar a partir de onde estamos, deixando de lado os cansados chavões políticos que os Passos Coelhos nos querem vender e que nos têm escravizado.  Não vamos pensar naquilo a que temos direito, vamos pensar naquilo que queremos obter.  Melhor assim, não?  Afinal, que é isso de ter direitos num covil de ladrões?

Tal como os ingleses das províncias, os portugueses também querem um governo mais justo, ensino mais qualificado e menos caro, menor corrupção financeira, mais serviço nacional de saúde, mais impostos para os muitos ricos, melhor distribuição do rendimento, melhores instrumentos de pequena poupança que não absorvam e cancelem as poupanças que a classe média tenta fazer , etc.  Depois dizem-nos: mas isso é impossível porque o capital internacional não vai deixar.  E aí é que chega o momento de pensar na Europa.

[…]

O primeiro trabalho a fazer, dir-se-ia, é começar a olhar para o lado: quer dizer, começar a fazer amigos nas periferias deste mundo; começar a falar com os que sofrem tanto quanto nós, perante este jugo odiento que constitui a forma como a elite financeira internacional vai acumulando mais e mais capital e vai abafando a economia mundial com esse capital subempregue—que só sabe gastar em coisas vergonhosas como as guerras que os Salafitas Saudis andam a fazer contra o mundo civilizado na Turquia, na Síria, no Paquistão, na Líbia e no Afeganistão.

Portugal vai ter que encontrar um novo projecto e esse projecto não pode ser alemão, porque os alemães já demonstraram em três guerras militares e mais uma guerra financeira, que não sabem governar nos interesses dos seus súbditos.  Já quanto aos franceses … só consigo pensar na Linha Maginot quando ouço o Presidente deles a dizer ainda mais vacuidades perante as crises que se acumulam à sua porta.

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E que tal ouvir as pessoas?

No Ladrões de Bicicletas

3. Sucede, contudo, que um inquérito muito difundido nas redes sociais («How the United Kingdom voted on Thursday… and why») desaconselha leituras eleitorais do referendo demasiado simplistas e lineares. Nessa análise, em vez de se tentar deduzir a motivação do voto a partir da sua distribuição segundo a idade, o contexto de vida ou o nível de escolaridade, colocou-se de modo muito direto a questão que verdadeiramente importa: «por que razão votou como votou?». E eis que a «narrativa xenófoba», nos termos em que foi formulada, perde aderência à realidade:

4. De facto, para metade (49%) dos eleitores do «Leave», a principal razão para votar Brexit decorre da perda de soberania política no contexto da pertença à UE. Um argumento bastante mais relevante que o da imigração, associado a apenas um terço desses eleitores (e não necessariamente relacionado com sentimentos xenófobos). Por seu turno, constata-se que a parcela mais relevante (43%) dos votantes no «Remain» não é propriamente entusiasta da UE. Apenas estima que os riscos e impactos decorrentes da saída são superiores aos da permanência. E que, para 31% dos apoiantes do «Remain», sair significa abdicar da situação de privilégio que o Reino Unido tem na UE, onde beneficia do acesso ao mercado único sem ter que submeter a Schengen nem às regras do Euro.

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Xenofobias há muitas

No Jornal Tornado

A saída do Reino Unido da União Europeia, ou a sua continuação, será o resultado de um exercício básico de democracia, essa coisa que está de tal maneira corrompida no espaço europeu que os senhores de Bruxelas até se esquecem de a invocar.

Ao invés, em vez de promoverem o esclarecimento sereno dos britânicos, patrocinam uma campanha de medo e mentiras onde avultam figuras desacreditadas como o presidente dos Estados Unidos, o conspirador e golpista internacional George Soros através do seu Grupo Internacional de Crise (destruição da Jugoslávia, criação do Kosovo, golpe fascista na Ucrânia e outras coisas equivalentes) e o inimitável Tony Blair – será impossível resumir as suas malfeitorias, mas bastará recordar a sangria do Iraque baseada numa comprovada aldrabice.

Enfim, são todos muito boas recomendações para um Reino Unido dentro da União.

O ambiente de pressão é de tal ordem que um cidadão comum quase terá que pedir desculpa para dizer que não virá mal nenhum ao mundo se o Reino Unido sair da União Europeia, entidade em implosão.

O grau de desmantelamento é tal que Bruxelas e o colaboracionista David Cameron em Londres fabricaram uma União Europeia à la carte para os britânicos, a qual, bem à medida do primeiro-ministro inglês, é racista e xenófoba.

Não foi ele que qualificou os refugiados e imigrantes como “uma praga”, levando Bruxelas atrás de si, o que nesta matéria nada tem de difícil? A partir de agora qualquer país da União pode reclamar um estatuto especial para si, ameaçando com a saída. Será uma simples questão de coragem política.

Alega-se: do lado do Brexit estão os fascistas britânicos. Pois estão. E quem está ao lado dos fascistas ucranianos, polacos, húngaros, eslovacos, estonianos, lituanos, croatas, kosovares, turcos com quem a NATO e a União Europeia anda nas palminhas?

Os fascistas estão em todo o lado na Europa, porque os dirigentes da Europa lhes estendem as mãos, uns por oportunismo, outros por convicção. Quando se der o alerta geral provavelmente será tarde.

Com ou sem Brexit, a União Europeia está a cavar um pouco mais da sua sepultura. Enquanto isso, fortalecem-se os sinais, em todo o mundo, de que o neoliberalismo, como estado supremo do capitalismo, necessita cada vez mais de sistemas políticos autoritários para maximizar os proveitos da sua anarquia financeira.

Isto é, o mercado verdadeiramente livre sente ainda como estorvo o pouco que resta de democracia. Por isso o fascismo ressurge em cada canto, por ser o infalível garante da equação exploração máxima igual a lucro máximo.

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