O assassinato da Europa

F. William Engdhl, In GlobalResearch, 12/11/2016, Tradução por Estátua de Sal)

O hesitante projeto dos EUA, conhecido como Trans-Pacific Trade Partnership ou Trans-Atlantic Trade and Investment Partnership, é pouco mais do que Mussolini em esteróides. As centenas de corporações mais poderosas ficarão formalmente acima da lei nacional se formos estúpidos o suficiente para eleger políticos corruptos que aprovem tal disparate. No entanto, poucos analisaram com rigor o efeito que está a ter a cedência da soberania monetária sob o regime do Euro.

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Delors derrubou o princípio estabelecido pelo francês Charles de Gaulle, princípio que De Gaulle designava por “Europa das Pátrias”. A visão de De Gaulle da Comunidade Económica Européia – então seis nações, incluindo a França, a Alemanha, a Itália e o Benelux – era que haveria reuniões periódicas dos primeiros-ministros das seis nações do Mercado Comum. Nessas reuniões, entre chefes de Estado eleitos, as políticas seriam formuladas e as decisões tomadas. Uma assembleia eleita por membros de parlamentos nacionais reveria as ações dos ministros. De Gaulle considerava a burocracia de Bruxelas como um órgão administrativo puramente técnico, subordinado aos governos nacionais. A cooperação devia basear-se na “realidade” da soberania do Estado. A aquisição supranacional de poder sobre nações individuais da CEE era anátema para De Gaulle, e com razão. Se o é para os indivíduos, assim também o é para as nações – a autonomia é básica e as fronteiras importam.

O Ato Único de Delors pretendeu derrubar a Europa das Pátrias através de reformas radicais na CEE com base na ideia destrutiva de que as diversas nações, com diversas histórias, culturas e diversas línguas, poderiam eliminar fronteiras e tornar-se uma espécie de ersatz, Estados Unidos da Europa, conduzidos do topo por burocratas não eleitos em Bruxelas. Trata-se essencialmente de uma visão corporativista, ou fascista do estilo Mussolini, de uma burocracia europeia não-democrática e não responsável que controla as populações arbitrariamente, respondendo apenas à influência corporativa, à pressão, à corrupção.

Foi uma agenda desenvolvida pelas maiores multinacionais da Europa, cuja organização de lobby era o European Roundtable of Industrialists (ERT), o influente grupo de lobby das grandes multinacionais europeias (onde se entra apenas por convite pessoal), como a suíça Nestle, a Royal Dutch Shell, BP, Vodafone, BASF, Deutsche Telekom, ThyssenKrupp, Siemens e outras gigantes multinacionais européias. O ERT, sem surpresa, é o principal lobby que em Bruxelas promove a assinatura do tratado comercial, TTIP, com Washington.

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O tratado de criação de uma união monetária foi assinado numa conferência da CEE de 1992 em Maastricht, na Holanda, após a unificação da Alemanha. A França e a Itália, apoiadas pela Grã-Bretanha de Margaret Thatcher, forçaram a sua assinatura, ultrapassando as dúvidas alemãs, para “conter o poder de uma Alemanha unificada”. A imprensa britânica conservadora censurava a Alemanha por ser um potencial “Quarto Reich” emergente conquistando a Europa economicamente, ainda que não militarmente. Ironicamente, isso é o que, de facto, emergiu das estruturas do Euro hoje. Devido ao Euro, a Alemanha domina economicamente os 19 países da zona do Euro.

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Os burocratas da UE têm um nome bonito para este desfasamento entre os funcionários não eleitos do BCE que controlam o destino económico dos 19 estados membros com 340 milhões de cidadãos da chamada Zona Euro. Designam-no por “déficit democrático”. Esse déficit cresceu de forma gigantesca desde a crise financeira e bancária global de 2008 e aumento de importância do não-soberano Banco Central Europeu.

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A criação da moeda única em 1992 colocou os Estados-Membros do Euro numa camisa-de-forças económica. O valor da moeda não pode ser alterado para impulsionar as exportações nacionais durante os períodos de recessão económica como os registados desde 2008. O resultado foi que a maior potência industrial da Zona Euro, a Alemanha, beneficiou do Euro estável, enquanto as economias mais fracas na periferia da UE, e até mesmo a França, suportaram conseqüências catastróficas devido à rigidez da taxa de câmbio do Euro.

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Actualmente, de acordo com o Eurostat, a indústria representa 14,1% do valor acrescentado bruto total francês. Em 1995, era de 19,2%. Na Alemanha é de 25,9%. O mais impressionante foi o colapso da indústria automobilística francesa, outrora vibrante. Apesar de a produção mundial de automóveis ter quase duplicado de 1997 para 2015 de 53 milhões para 90 milhões de veículos por ano, enquanto a Alemanha aumentou a sua produção automóvel em 20% de 5 para 6 milhões, desde a entrada da França no Euro em 2002, a produção automóvel francesa caíu quase metade, de quase 4 milhões para menos de 2 milhões.

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O bail-in, apesar de parecer melhor do que resgate pago pelos contribuintes, na verdade, exige que os depositantes de um banco sejam expoliados dos seus depósitos para “resgatar” um banco falido, se Bruxelas ou o não eleito Eurogrupo determinarem tal apropriação dos depósitos, a qual é necessária se os detentores de acções e obrigações do banco e outros credores não foram capazes de fazer face às perdas. Este confisco foi aplicado nos bancos do Chipre em 2013 pela UE. Os depositantes com mais de € 100.000 perderam 40% de seu dinheiro.

Se você é um depositante, digamos, do Deutsche Bank, estando em queda as ações deste, como têm estado, além dos problemas legais que ameaçam a sua existência, recusando-se o governo alemão a ouvir falar de resgate e deixando o banco numa situação de bail-in potencial, você pode ter certeza que cada depositante com uma conta acima de € 100.000 vai levantar o seu dinheiro e transferi-lo para outros bancos, agravando a crise do Deutsche Bank. Em consequência, todos os restantes depositantes ficam vulneráveis a um bail-in como o que foi aplicado pelo Eurogrupo aos bancos do Chipre.

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Em 1992, quando os bancos suecos entraram em insolvência devido a uma bolha do imobiliário que rebentou, o Estado entrou em cena criando o Securum, um banco de resgate mau/bom. Os bancos falidos foram temporariamente nacionalizados. Empréstimos imobiliários tóxicos no valor de milhares de milhões foram colocados na empresa estatal, Securum, o banco dito mau. Os diretores dos bancos viciados em aplicações financeiras de alto risco foram demitidos. Os bancos nacionalizados, sem o fardo dos empréstimos ruins, foram autorizados, sob administração estatal, a retomar os empréstimos e regressaram aos lucros antes de serem reprivatizados à medida que a economia melhorava. O imobiliário improdutivo tornou-se novamente rentável à medida que economia foi recuperando ao longo de vários anos, e após cinco anos, o Estado pôde vender os ativos obtendo um lucro líquido e desativando a Securum. Os contribuintes não foram sobrecarregados.

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A Zona Euro não tem autoridade orçamental central, pelo que essas soluções não podem ser implementadas. Os problemas do sistema bancário estão apenas a ser resolvidos pelas autoridades monetárias, através da política insana do BCE de taxas de juro negativas, o chamado Quantitative Easing, em que o BCE compra milhares de milhões de euros de dívida corporativa e de dívida desonesta sem fim à vista e, em consequência das baixas taxas de juro, tornando as seguradoras e os fundos de pensões insolventes.

A resposta não é certamente a que propôs o cleptocrático George Soros e outros, ou seja, dar ao super-estado não eleito de Bruxelas o poder fiscal central para emitir Eurobonds. A única solução possível, longe de destruir as economias de toda a Zona Euro na próxima crise de solvência bancária europeia, é desmantelar o Monstro Frankenstein chamado União Monetária Europeia com o seu BCE e a moeda comum.

O conjunto dos países da Zona do Euro a 19 não formam aquilo que os economistas chamam “zona monetária ótima”, nunca o foi. Os problemas económicos da Grécia, da Itália ou mesmo da França são muito diferentes dos da Alemanha, de Portugal ou da Espanha.

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E sobre isso, só posso dizer que ele estava certo. E hoje, a asserção ainda é mais verdadeira. O Euro e o Banco Central Europeu estão a assassinar a Europa tão eficazmente como a Segunda Guerra Mundial, sem bombas e sem escombros.

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