O Brexit

Há muito a escrever e a dizer sobre o referendo, com todos os lados com a sua razão desde os populistas ao elitistas passando pelos xenófobos e pelos euro-evangelistas – sim, todos têm razão nalguma coisa nesta questão, como a ausência de uma clara dicotomia esquerda-direita evidencia. Vou tentar salienta os meus pensamentos sobre a matéria, após o facto.

Durante vários meses não seria capaz de dizer o que preferia, quanto mais qual deveria ser a opção dos britânicos.  Estando de fora e com algum desconhecimento sobre o funcionamento interno do Reino Unido, contínuo sem ter a certeza de qual a melhor opção para os britânicos – não concordo de todo com os argumentos contra a imigração nem contra as obrigações para com a união europeia, mas não consigo ver um bom futuro para os britânicos em qualquer das situações. Nem souberam os defensores da Europa apresentar esse futuro, falando apenas no lado mau da saída sem apresentar pontos positivos da UE. É também preciso não esquecer que o referendo nada tem de vinculativo e que o que os eleitores dizem sobre a Europa raramente tem qualquer importância.

Resta-me falar como um europeu em geral, e como português (obrigado a opções económicas patéticas) em particular, e sexta-feira não pude resistir a ficar contente com o resultado da mesma forma que fiquei contente na última eleição nacional: com alguma, mas muita pouca renovada esperança. A verdade é que o RU nunca pertenceu muito à Europa e teve sempre regras à parte, tendo obtido novas excepções recentemente em questões fundamentais – se o objectivo é federalizar a Europa, o RU nunca o deixaria, tendo  feito sempre tudo para impedir uma maior união. Além disso, tem sido cada vez mais controlado pelo seu sistema financeiro e contribuído fortemente para as reformas neo-liberais europeias, bem como para a proliferação da fuga fiscal.

O que sobra para o resto da Europa é perceber o seu caminho. A resposta normal é continuar como se nada se tivesse passado e ignorar as vozes dos seus cidadãos, mas isso já não é mais possível: se os partidos do poder não apresentam luz ao fim do túnel da Grande Recessão, os cidadãos escolhem a primeira alternativa possível, seja bem pensada ou não, porque o desconhecido deixa de ser temido face à devastação do poder de compra dos 99%. Ou apresentam rapidamente uma revolução palpável e credível aos cidadãos ou estes não terão alternativa a usar o voto (e eventualmente a violência) para causar o fim do autoritarismo dos iluminados.

Assim, o Brexit terá como consequência acelerar uma de duas coisas: ou o surgimento de uma verdadeira reforma democrática europeia ou então o fim da moeda única e de outros tratados que em nada têm beneficiado os cidadãos europeus. Qualquer uma das duas já vem tarde, embora assim talvez possamos ter o CETA e o TTIP como primeiras vítimas. A resposta de Merkel em convocar meia dúzia de lideres europeus para decidir o passo seguinte não indicia que haja alguma intenção de ouvir os cidadãos europeus, porque o que já não é aceitável por ninguém é a criação de mais um grupo de tecnocratas incompetentes sem mandato democrático para controlar mais aspectos da vida de 500 milhões de pessoas.

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Filed under Desunião Europeia, Guerra de Classes

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