O Jogo Minado

O jogo começa com o campo inclinado e com a pressão da comunicação social, e o campeão actual ganha como esperado. Só que não era um jogo a dois, mas a quatro e passou a cinco, se bem que na realidade era a sete. E também não era um jogo, apesar de existirem muitos adeptos a apoiarem o seu clube sem conhecer a qualidade das jogadas e sem darem cinco segundos de atenção aos restantes. O resultado e o vencedor, se o há, ainda está por decidir uma semana depois.

Sobre o resultado, sinto necessidade de fazer alguns comentários.

O primeiro é que não estamos a falar de que 62% dos eleitores eram contra a coligação, nem de que 70% são a favor da NATO, do Euro ou de outra coisa qualquer. Para começar, 40% destes não votaram, por variadas razões, pelo que todos os valores passam quase a metade. Em segundo lugar, o que se pode extrair é quantos, dentro dos eleitores que votaram, escolherem eleger deputados nos vários partidos. No máximo, pode-se extrapolar a quantidade de votantes que preferiam ter este ou aquele primeiro ministro, porque há muita gente que vota assim.

Mais do que isso não existe. Não temos, por exemplo, voto preferencial, por isso não se pode saber contra quem se votou ou o quanto se desgosta de um determinado partido. Já quanto a outras matérias, nunca foram a votos, referendos, nem tão pouco estiveram em discussão na campanha. Além disso, nunca foi do interesse nem dos sucessivos governos nem da comunicação social informar os eleitores sobre custos e benefícios das escolhas feitas, mas estas foram unicamente apresentadas como o caminho único civilizado, ao bom estilo provinciano das “elites” nacionais no qual tudo o que vem de fora é que é bom.

A segunda questão é a resposta ao resultado. As nossas “elites” de comentadores, que tanto apregoam o seu pluralismo, a sua isenção, alguns até a necessidade de alternativa afinal querem tudo igual. Mudar, só um poucochinho, como se o mundo voltasse a 2007 e estivesse tudo tranquilamente mal e pudessem estar confortavelmente no seu megafone a dizer sempre o mesmo sem que nada mudasse. Não muda, não pode, porque a zona euro é o que é, tem uma moeda única que não funciona como moeda única e na qual a única opção económica é a estagnação e a transferência de valor do trabalho para o capital. Não adianta falar no medíocre crescimento, na subida das exportações, no aumento do emprego e outros incidentes quando não há economista que diga que há crescimento económico com taxas de juro negativas ou nulas e inflação nula, a acrescentar no caso português um PIB longe de atingir o de há 5 anos, quanto mais recuperar o tempo perdido. É uma contradição, nem sequer é preciso saber muito da coisa. Temos pena (não tenho nenhuma), mas a austeridade e a competitividade por salários cada vez mais baixos são coisas que nunca funcionaram, mesmo um IRC, TSU e demais impostos mais baixos não são a silver bullet do século XXI, muito menos no contexto de uma moeda única que não é uma moeda única.

Portanto, não são precisas mudançazinhas para tudo ficar na mesma, são preciso mesmo alternativas, mas, de repente, afinal ninguém quer mudar nada porque isso implica o risco de falhar e eles estão todos muito confortáveis, que interessa que 99% de quem os ouve não esteja? Esquecem-se que o mundo continua a girar e sempre a evoluir, quer as pessoas estejam preparadas quer não, e que é sempre melhor quando somos nós enquanto sociedade evoluímos com ele invés de levarmos com ele em cima. Mas assim é Portugal, e tão cedo não muda, porque quem tem poder, nem que seja para estar sempre na TV todas as semanas, tem sempre razão. Por alguma razão Marcelo irá ser Presidente, alguém lhe conhece uma ideia política que seja? Não que isto seja um exclusivo nacional, disto nada se inventa cá, importa-se, lembram-se?

“Bem, e então afinal onde estão as minas?”, perguntam vocês e perguntam muito bem, mas já devia ser óbvio. A armadilha é que, para não sucumbir à merda do situacionismo, quem tem de facto uma alternativa tem que o fazer no meio desta gentalha estagnada que não faz nem deixa fazer. E, ao contrário do que vende a TINA, não há soluções mágicas nem fáceis, são difíceis e vão ter custos, mas não me parece que as pessoas estejam preparadas para isso porque lhes é vendido que está tudo bem e estável, quando quem se deu ao trabalho de aprender alguma coisa nos últimos cinco anos vê que a economia europeia é um gigantesco baralho de cartas que vai ruir à próxima crise (e se com o “boom and bust” tão querido dos capitalistas é mais ou menos a cada dez anos, bem, não falta muito) com consequências imprevisíveis. A xenofobia e o racismo por aí andam, basta andar pela Internet para os ver alto e bom som, então agora com os refugiados nem é preciso uma pessoa esforçar-se. Quem estiver no poder vai ter obviamente toda a culpa do mundo de coisas mais que previsíveis e evitáveis, mas que “ninguém sabia”, como calha sempre aos ignorantes profissionais dizer nestas alturas.

E aí pode morrer a alternativa, porque afinal estes idealistas não percebem a realidade, se tivessem seguido o caminho único estávamos todos no paraíso, como se os 99% não estivessem na merda na mesma. É esta a armadilha que me faz ter medo, porque Portugal é isto e tão cedo não muda.

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