Depois do FMI, eis o ex-conselheiro de Barroso a fazer campanha contra o PaF

O economista britânico Philippe Legrain ao DN

Teve uma troca acesa de opiniões no Twitter com Bruno Maçães sobre a situação portuguesa. Acredita que o secretário de Estado está a tentar “dourar a pílula” da situação portuguesa?

Com eleições à porta, o governo está a defender o seu terrível recorde – inclusive recorrendo à propaganda de que Portugal “deixou os seus problemas para trás”, como Maçães escreveu. É propaganda e é um absurdo.

[…]

Polémicas à parte: que análise faz da atual situação económica e financeira portuguesa?

A economia portuguesa está a beneficiar de fatores externos positivos.[…] Internamente, a extrema austeridade de 2011-12 foi aliviada: o aperto fiscal é muito menor neste ano. [ed: Que se lixem as eleições? Pois…] Como resultado a economia está a crescer outra vez, lentamente. Mas Portugal ainda está num buraco fundo. A economia está ainda 7,5% mais pequena do que no seu pico no início de 2008 – na verdade está mais pequena do que em 2002 – e ao nível atual de crescimento de 1,5% não vai voltar aos níveis de 2008 antes de 2020: mais de uma década perdida. As dívidas globais – das famílias e das empresas – são insuportavelmente grandes. Os bancos ainda estão numa confusão, com o escândalo do BES à cabeça. Os salários caíram. A pobreza aumentou. O desemprego continua altíssimo. Muitos portugueses emigraram. Ajustando para a população ativa que não tem trabalho e o subemprego, o FMI calcula uma redução do mercado de trabalho de 20%. O FMI também diz que as reformas portuguesas foram inadequadas e que ainda têm de produzir benefícios. Portugal é um país europeu relativamente pobre. Devia estar a aproximar-se dos mais ricos através de mais investimento e aumentando a produtividade. Em vez disso, está a posicionar-se para ser ultrapassado pela Polónia e outros. É trágico.

Pelo que diz, o programa de assistência a Portugal foi malsucedido. Quem foi o responsável: o governo ou a troika?

O programa falhado foi projetado pela troika dentro das limitações políticas definidas pela Alemanha. E foi entusiasticamente implementado pelo governo português, que tentou ser “mais alemão do que os alemães”. Mas as consequências foram desastrosas: uma longa e desnecessária depressão da qual o país ainda não recuperou e que perversamente causou uma dívida pública tão alta que ultrapassa o produto interno bruto.

[…]Que modelo deve a Europa seguir para ultrapassar esta crise? Ou pegando no seu livro: como pode haver a tal “Primavera Europeia”?

A Europa precisa de uma Primavera Europeia de renovação económica e política. Precisamos de resolver de uma vez por todas a crise de forma decisiva e justa, reduzindo as dívidas insuportáveis, tanto privada como pública, limpando os bancos, e aumentado o investimento, com a Alemanha a desempenhar o seu papel na dinamização da procura interna. Precisamos de reformas para tornar as nossas economias mais dinâmicas, focando-se no aumento da produtividade e, consequentemente, nos padrões de vida, e não de cortar salários numa demanda germânica da “competitividade”. E precisamos de políticas muito mais abertas e honestas que antecipem o interesse público em vez dos interesses particulares (em particular o setor financeiro) e que permitam às pessoas legitimar escolhas democráticas sobre questões cruciais como a tributação e a despesa.

No livro escreve que a Europa está uma confusão. Quem são os responsáveis?

A narrativa alemã de que a crise é culpa de toda a Europa do Sul é falsa. A Europa está numa confusão por muitas razões. Empréstimos excessivos feitos por um setor financeiro mal regulado a mutuários insensatos. As políticas mercantilistas da Alemanha – baixar salários para subsidiar as exportações e acumular enormes superavits externos – que alimentaram maus empréstimos dos bancos alemães nos anos pré–crise e que agora exportam deflação. O poder dos interesses instalados em todos os países que reprimem as oportunidades e roubam o valor criado por outros. Decisões políticas catastróficas tomadas pelos decisores da zona euro, especialmente Angela Merkel.

O euro está condenado ao fracasso ou ainda se pode salvar?

Economicamente, a zona euro é um inteiro desastre. A economia está 1,5% mais pequena do que o seu pico de há sete anos; no mesmo período, os EUA, que também tiveram uma grande bolha seguida de uma crise financeira, cresceram quase 10%. Desde que o euro começou a falhar, como até Mario Draghi admite, está a ser mantido por políticas de estímulo: a crença de que o futuro do projeto europeu está dependente delas, o interesse próprio de credores poderosos de cada país e o medo das consequências de uma separação desordenada. Mas, a menos que a zona euro comece a produzir padrões de vida mais elevados para todos de uma maneira que respeite as democracias nacionais – sugeri que precisávamos de uma zona euro mais flexível para conseguirmos isso -, este casamento infeliz vai acabar eventualmente em acrimónia.

[…]

No seu entender, a comissão Barroso fracassou em todas as intervenções que teve na crise europeia?

As autoridades da zona euro em geral falharam miseravelmente aos europeus.

 

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