Monthly Archives: Agosto 2016

Eu estive uns anos no governo a varrer para debaixo do tapete

Leave a Comment

Filed under Desiconomia, Hipocrisias

Fogo que arde e se vê

João Quadros é um humorista que costuma acertar, e muito, nas críticas à parvoíce política. Eis a crónica de hoje no Jornal de Negócios:

Chegou tarde, mas chegou em força, a temporada de incêndios. Como sempre, nesta altura, há especialistas em incêndios nos sete canais.

Todos têm teorias sobre o que já devia ter sido feito, o que não se fez e o que não deviam ter desfeito. Chegando o fresco Setembro, já nunca mais ninguém pensa nisto. Depois, passam uns meses e vêm os especialistas nas cheias em Albufeira e Santarém, e o ano termina com a falta de limpa-neves na serra da Estrela (que tem a única estância de esqui do mundo que, quando neva, fecha). Já todos sabemos que, depois, fica tudo na mesma. A única medida para ajudar na prevenção dos incêndios em 2017 era aumentar o tamanho dos baldes das esfregonas, porque acaba sempre por ser o popular com o balde a lutar com o incêndio.

Confesso que pouco percebo do tema. Em criança, peguei fogo a umas dezenas de coisas, mas metade foi sem querer. A partir do momento em que tomei conhecimento que um tipo vai à caça e invade o terreno privado de outro, e está à vontade, mas que se for alguém da câmara limpar o mato, é invasão de propriedade, desisti de perceber do assunto. É demasiado complexo. Diria que os tipos da câmara que vão fazer as limpezas deviam levar mais caçadeiras do que ancinhos.

Pelo que vi, em termos de material, sinto que fazem falta mais “meios aéreos”. É uma pena o arpão não disparar mísseis de água. Fez-me confusão ver que na Madeira aquilo ardia tudo e nem uma avioneta com uma mangueira. E quando vi a notícia: “Marrocos envia aviões para Portugal”, estranhei que não aparecesse o discurso do “cuidado que podem vir extremistas islâmicos misturados com bombeiros”.

Na verdade, Portugal acabou a ser ajudado pelos russos e pelos marroquinos, nossos parceiros na União Europeia. Não sejamos injustos, há uma explicação. A UE justificou a ajuda limitada a Portugal com falta de disponibilidade de meios devido aos incêndios registados em vários Estados-membros, e ao gato do Schäuble, que não queria descer de uma árvore.

Pior do que a prevenção de incêndios, só a cobertura jornalística dos mesmos. O jornalista está convencido de que é melhor jornalista quanto mais perto estiver do fogo. Se estiver com dificuldades em respirar, melhor ainda. Mas não ajuda no combate, isso, nem pensar. Entrevista um senhor que está a lutar pela vida, com um ramo contra uma labareda, mas não intervém. Limita-se a perguntar – vocês correm o risco de ficar sem nada? – Sim, se o senhor não se chegar para o lado ou não for buscar um balde.

Depois, há os senhores jornalistas que, perante pessoas em choro e desespero, a quem tudo ardeu, perguntam sempre o mesmo: “É uma situação que nunca tinha vivido?”

– A minha casa ardeu, fiquei sem nada, não sei do meu filho…

– É uma situação que nunca tinha vivido?

– Não, ainda na semana passada lutei com uma lula gigante.

Evitem. É só estúpido.

Leave a Comment

Filed under Hipocrisias, Mérdia

Os 7 “melhores” eufemismos dos tratados de livre comércio

Esquerda.net:

Depois das divulgações da Greenpeace e do seu impacto social e mediático, as instituições europeias e os meios de comunicação liberais viram-se obrigados a explicar em que consistem essas coisas raras chamadas TTIP1 ou CETA2. Para isso utilizam uma grande variedade de eufemismos positivistas que nos fazem “entender” as bondades do maravilhoso livre comércio e outros negativos que nos mostram quais são as ‘barreiras’ que há que derrubar.

Harmonização

Como se se tratasse de procurar a sintonia perfeita entre os regulamentos europeus e norte-americanos, a palavra ‘harmonização’ é usada pelos pró-TTIP para se referirem ao processo pelo qual as diferentes legislações, normativas e controles são igualados para que não haja diferenças entre as duas partes. O que não costumam explicar é que as grandes multinacionais e lóbis que têm regulamentos mais permissivos no seu país não têm a intenção de deixar que aumentem esses controles, pelo que fica claro – e ainda mais vendo outros tratados assinados anteriormente – que esta harmonização é um bonito eufemismo para se referirem a “nivelar por baixo”.

Barreiras não alfandegárias

Como se de um summum de eufemismos negativos se tratasse, este conceito combina três palavras que já por sim têm conotação negativa. Esta técnica é usada para que o recetor entenda que do que se está a falar é de algo muito mau e que se tem que eliminar. Mas o que se esconde por detrás das “barreiras não alfandegárias” são legislações como a que proíbe o uso de substâncias que não se tenha provado não serem cancerígenas, as denominações de origem ou os controles fitossanitários. Para um comércio totalmente aberto, tudo o que seja uma “barreira” para as mercadorias é algo mau que deve ser eliminado, incluindo a nossa saúde.

Normas protecionistas

Às “barreiras não alfandegárias” também se lhes pode chamar normas protecionistas. Utilizar o termo ‘proteccionista’ com conotações negativas tem sido repetido e normalizado pelo neoliberalismo. Para os defensores do livre comércio, os governos não devem “proteger” os seus mercados, as suas empresas, a sua natureza nem a sua população, porque o “proteger” está contra o sagrado livre comércio.

Burocracia fronteiriça

A palavra ‘burocracia’ sempre carregou a conotação de papelada desnecessária e obstáculos a algo que deveria ser simples. Os defensores do livre comércio utilizam este termo para falar dos controles fronteiriços que as mercadorias precisam passar, para evitar, por exemplo, que frangos banhados em cloro cheguem às nossas mesas. É bastante incrível que na União Europeia ou nos Estados Unidos, onde para poder entrar ou residir, se fores imigrante, precisas de passar por bastante mais do que intermináveis trâmites burocráticos, insistam em eliminar essa outra “burocracia fronteiriça”.

Tribunais arbitrais independentes privados

Toma lá! Superamos-nos com um eufemismo de quatro palavras. Os tribunais privados incluídos nos tratados de livre comércio decidem sobre os litígios entre empresas e governos. Este conceito, mais do que um eufemismo, pode considerar-se um oxímoro, já que dizer que algo privado, que tem que mediar entre governos e empresas, é ‘independente’ custa a crer.

Cooperação reguladora

Como costuma ser normal no uso dos eufemismos, aqueles que os usam apoderam-se de palavras tão positivas como ‘cooperação’ para esconder que por detrás desta ‘regulação’ só se encontra a cooperação entre multinacionais e funcionários da Comissão Europeia que nunca foram votados. O “conselho de cooperação reguladora” destes tratados pretende que estes atores são os que podem “cooperar” para modificar as leis à medida que lhes vá fazendo falta.

Produtos de tecnologia agrícola moderna

Eis os transgénicos. Apesar da maioria dos peritos reconhecer que a fome no mundo é um problema de distribuição e não de escassez, a indústria agroalimentar dos Estados Unidos esforça-se para que os padrões de segurança se nivelem por baixo para poder inundar o mercado europeu de alimentos, sementes, herbicidas, etc., com a sua correspondente patente. As dificuldades da chegada do milho e da soja transgénicos, não autorizados na Europa, representaram um duro golpe para as exportações norte-americanas, pelo que não descartamos novos eufemismos modificados ideologicamente.
Artigo publicado em El Samón Contracorriente. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Leave a Comment

Filed under "Liberais" a funcionar, Guerra de Classes

Se forem alemães a dizê-lo, já levam a sério?

Heiner Flassbeck no Expresso, via Estátua de Sal

Se a forte correlação entre o CUT [custo das unidades de trabalho] e a inflação fosse reconhecida e colocada no coração da análise macroeconómica, tornar-se-ia claro que o principal requisito para unidade monetária de sucesso não seria o controlo sobre os assuntos monetários, mas a gestão das receitas e dos salários nominais. Para ser específico, o objetivo de inflação comum para a UEM foi definido pelo BCE a uma taxa próxima de 2%. Isto implicava que a regra de ouro para o crescimento salarial em cada economia seria a soma do crescimento de produtividade nacional mais 2%. Por esta medida, não ocorreriam as grandes discrepâncias de inflação que levam às discrepâncias de competitividade entre os Estados-membros.

[…]

As preparações para a UEM foram profundamente falhadas porque em vez de se discutirem em detalhe as implicações de uma união monetária e em vez de se criarem as instituições necessárias para gerir com sucesso uma tal união, o debate político e as decisões tomadas nos anos até 1997 – altura em que os critérios para a entrada tinham de estar cumpridos – na realidade focaram-se na política fiscal.

[…]

A Alemanha, com a sua intolerância absoluta a que a inflação excedesse os 2% e a sua tradição monetarista dogmática, silenciou qualquer outro ponto de vista sobre a inflação. No entanto, a Alemanha, o maior país da União Europeia e o bastião da estabilidade de várias décadas, decidiu experimentar um novo modo de combater o seu alto nível de desemprego. Em conjunto com os empregadores, o Governo pressionou os sindicatos para tentar restringir o crescimento nominal e real dos salários.

[…]

A nova abordagem alemã ao mercado de trabalho coincidiu com a introdução formal da união monetária, o que levou consequentemente a enormes divergências nos custos nominais de unidades de trabalho entre os membros da UEM. A principal causa destas divergências foi o simples facto de os custos nominais das unidades de trabalho, a mais importante determinante de preços e competitividade, se terem mantido essencialmente sem oscilações desde o início da UEM. Em contraste, a maioria dos países da Europa da Sul tinha um crescimento nominal dos salários que excedia o crescimento da produtividade nacional mais o objetivo de inflação acordado em comum de 2% por uma margem baixa, mas bastante estável. França foi o único país que cumpriu exatamente o objetivo de crescimento nominal dos salários. Os salários franceses subiram em paralelo com a performance da produtividade mais o objetivo de inflação do BCE a uma taxa perto de 2%.

Embora a divergência anual entre os aumentos nos custos de unidades de trabalho fosse relativamente pequena, a dinâmica dessa “pequena” divergência anual é capaz de, com o tempo, produzir diferenças enormes. No final da primeira década de UEM, o custo e diferença de preço entre a Alemanha e a Europa do Sul chegava aos 25% e entre a Alemanha e França chegava aos 15%. Por outras palavras, a taxa de câmbio real da Alemanha tinha baixado muito significativamente, embora as moedas nacionais já não existissem na UEM. A divergência no crescimento dos custos das unidades de trabalho já não existiam no seio da UEM. A divergência no crescimento dos custos das unidades era naturalmente refletida nas divergências de preço equivalentes. Assim, a UEM como um todo alcançou quase na perfeição o objetivo de inflação de 2%, mas as diferenças de inflação nacionais no seio da união foram muito sensíveis.

É inegável que a depreciação real que aconteceu na Alemanha teve um enorme impacto nos fluxos de comércio. Com os custos de unidades de trabalho na Alemanha mais baixos relativamente aos dos outros países por uma margem crescente, as exportações alemãs floresceram enquanto as importações abrandaram. Os países na Europa do Sul e também França e Itália começaram a registar défices comerciais e de conta corrente crescentes e sofreram enormes perdas nas suas quotas dos mercados internacionais. A Alemanha, ao contrário, conseguiu preservar a sua quota apesar da competição global crescente com a China e com outros mercados emergentes. Num casulo, a Alemanha tem operado uma política de “pedinchar ao vizinho”, mas só de pois de ter “pedinchado ao seu próprio povo” essencialmente através do congelamento dos salários. Este é o segredo do sucesso alemão dos últimos 15 anos.

O comércio dentro da Europa tinha sido bastante equilibrado até ao início da união monetária e ao longo de muitos anos antes disso. A UEM marcou o início de um período de desequilíbrios rapidamente crescentes. Até após o choque da crise financeira e dos seus devastadores efeitos no comércio mundial, que são claramente visíveis no equilíbrio alemão, a tendência de fundo manteve-se sem mudar. A conta-corrente alemã continuou a aumentar depois de 2010 e até alcançou um novo recorde em 2015, da ordem dos 250 mil milhões de euros, um valor próximo de 9% do PIB.

Num mundo de taxas cambiais flutuantes ou ajustáveis, nenhum país pode ganhar uma vantagem permanente relativamente a outro país se este último tivesse a opção de ajustar as suas taxas cambiais de acordo com os diferenciais da inflação. Isto significa que seriam inúteis todas as tentativas para melhorar a competitividade por via de corte ou moderação de salários na UEM como um todo. E, no entanto, esta foi precisamente a abordagem escolhida pela Europa como saída para a crise. Foi também uma má opção porque o corte salarial na maioria dos países devedores conduziu a quebras severas na procura doméstica, que é mais importante do que a procura externa. A restrição dos salários foi contraproducente em economias com uma taxa de exportação do PIB muito inferior a 50%.

Numa união monetária, um país com uma taxa de exportação baixa que enfrente problemas de défice de conta-corrente muito alto devido a uma moeda implicitamente sobrevalorizada fica sem saída. O ajuste dos salários para baixo, por vezes erroneamente chamados “desvalorização interna”, não só não é solução como também destrói tanto a procura interna como a produção antes que venha a trazer algum alívio através de aumento das exportações.

É por isto que o processo de ajustamento no seio da UEM tem de ser pelo menos simétrico. Significa que o país que tenha implicitamente desvalorizado a sua taxa cambial – a Alemanha – teria de fazer um forte esforço de ajuste crescente, isto é, aumento de salários, enquanto outros países teriam de ajustar lentamente para baixo.

O incentivo mais fiável para o sucesso dos esforços de ajustamento em ambos os casos seria de novo o objetivo de inflação. Se o objetivo de inflação comum não fosse questionado, para restaurar a competitividade internacional dos défices dos países seria necessário aumentar os custos das unidades de trabalho e inflação no país com excedente ao ponto de se conseguir alcançar o balanço externo em ambos os lados da união monetária (incluindo os primeiros dez anos).

[…]

Em resumo, as divergências acumuladas durante os primeiros anos da UEM e a terrível natureza dos programas de ajustamento puseram em questão a própria sobrevivência da UE. E, no entanto, os líderes europeus parecem alheios a isso. Parecem ainda menos disponíveis para empreenderem um esforço político para inverter a economia em geral e impedir as divergências crescentes no seio da UEM. A perspetiva de desintegração e o decorrente colapso da união já não podem ser ignorados.

Leave a Comment

Filed under Uncategorized