Monthly Archives: Abril 2016

Economista defende que Portugal deve ter uma posição de força na defesa dos interesses nacionais

Mais um perigoso comunista a querer problemas (ionline):

Mas fala-se da necessidade de capital da CGD e de o Estado ter de abdicar de parte da propriedade do banco.

Não é boa solução. Ou é público ou é privado. Público com capital privado não funciona. Se for necessário, o Estado deve reforçar o capital da CGD.

E se houver constrangimentos europeus nesse domínio?

Portugal deve insistir. Não há nada nos tratados que o impeça e Portugal deve defender os seus interesses.

Fazer um braço-de-ferro com Bruxelas?

Se necessário. Não podemos à partida pensar que, por haver algumas restrições da Direção-Geral da Concorrência, devemos deixar de defender os nossos interesses. Temos de o fazer e temos armas para isso, como os outros países.

[…]

Foi tudo muito rápido…

Como tinha sido, aliás, o BES. Isto não é forma de funcionar. As instituições comunitárias tomam decisões e pouco ou nada respondem, nem sequer pagam os custos. Nós é que pagamos.

Estamos a caminhar para um cenário em que os pequenos bancos tendem a desaparecer?

Diz-se que é essa a intenção do Banco Central Europeu. Mas porque tem o país de pagar essa ideia? Isso é fruto de não termos uma união monetária e de não termos um banco central verdadeiramente central. Temos uma agência de um banco central.

[…]

Sente-se defraudado com o processo de integração europeia?

Não me sinto defraudado porque já sabia que ia dar nisto. A Comunidade Económica Europeia era um bom projeto, fui a favor da nossa adesão e não estou nada arrependido. Mas a partir da moeda única transformou-se num grande risco de desagregação.

Vê mais riscos hoje do que há um ano ou dois, quando a questão da Grécia estava mais quente?

Quando vi a forma como se reagiu à crise grega, em 2010, como infelizmente tinha poucas expectativas, foi a confirmação de que não havia solidariedade suficiente para manter um projeto tão ambicioso. A degradação vai sendo progressiva até vermos no que dá.

É por isso que continua a defender a saída do euro?

Não temos futuro dentro da zona euro. Sou um adversário muito grande da moeda única porque põe em causa três aspetos que, para mim, são fundamentais: a independência nacional; a democracia, porque reduz brutalmente as opções de política económica e social ao dispor de um país; e o próprio Estado social, porque os seus maiores inimigos são o desemprego e a estagnação económica. Põe em causa tudo o que, para mim, é valioso na política.

Portugal foi dos mais prejudicados com a moeda única?

Sim. Não tinha à partida condições para pertencer à zona euro. Aliás, é curioso, mas isso sabia-se. Nós recebemos muito dinheiro na altura justamente para contrabalançar as dificuldades que iríamos ter, o que mostra que foi uma opção estratégica incompreensível.

[…]

O euro é então reversível?

Acabará por ser, se calhar não da melhor maneira. É um projeto de uma densidade e gravidade tal que deveria ter havido muito mais cuidado. Em Portugal, ter-se bloqueado um referendo sobre a entrada no euro foi um desastre.

[…]

Os partidos mais à esquerda defendem a saída do euro, mas é realista pensar que pode haver abertura para isso do lado do governo?

A questão dos bancos foi muito importante para aumentar o ceticismo das pessoas – se nós não estivéssemos no euro, a solução para os bancos poderia não ser tão penalizante como foi. Isso foi mais uma machadada no apoio à zona euro. Mas a verdade é que nenhum dos problemas está resolvido, na Grécia muito menos, e portanto vamos ter uma evolução com certeza atribulada dentro da Europa. E na devida altura vamos ver como é que os partidos políticos reagem.

O Orçamento do Estado já entrou em vigor e foi a primeira vez que os partidos à esquerda se concertaram. O que achou das medidas aprovadas?

Não são más. A estratégia geral do Orçamento aproveitou a margem de manobra do petróleo baixo para fazer uma redistribuição, o que me parece bem. O OE tem sido muito criticado por não ser amigo do crescimento, mas a verdade é que os últimos Orçamentos não têm sido amigos do crescimento. Se este contribui para uma melhor redistribuição do rendimento, então cumpre uma missão.

[…]

Falta então um estímulo orçamental.

Isso já se sabe há décadas: a política monetária é útil para restringir a economia quando ela está sobreaquecida, deve mudar no sentido expansionista, mas só por si não garante a expansão da economia.

Faltaria então um plano de investimento à escala europeia, mais ambicioso do que o plano Juncker?

Sim. E pura e simplesmente admitir que haja financiamento monetário de défices públicos, como há nos EUA e no Reino Unido. O BCE já foi até ao limite do seu mandato – até há quem ache que já o excedeu –, mas a zona euro devia acabar com esse tabu. O BCE deveria comprar dívida pública diretamente aos Estados e fazê-lo sem juros, se necessário.

Há quem admita a possibilidade de serem usados instrumentos monetários pouco convencionais, como a entrega de dinheiro diretamente aos consumidores.

Tentou-se isso no Japão com vouchers para os consumidores gastarem, mas também não deu grande resultado. Mau não será, mas também não deu grande resultado. Então se se pode fazer isso, porque não se pode utilizar o financiamento monetário, que é mais eficaz? O problema a que estamos a assistir na zona euro é político, de poder.

Isto até já se pega aos ex-ministros de Cavaco. Como isto anda…

 

Leave a Comment

Filed under Desiconomia