Category Archives: Desunião Europeia

E que tal ouvir as pessoas?

No Ladrões de Bicicletas

3. Sucede, contudo, que um inquérito muito difundido nas redes sociais («How the United Kingdom voted on Thursday… and why») desaconselha leituras eleitorais do referendo demasiado simplistas e lineares. Nessa análise, em vez de se tentar deduzir a motivação do voto a partir da sua distribuição segundo a idade, o contexto de vida ou o nível de escolaridade, colocou-se de modo muito direto a questão que verdadeiramente importa: «por que razão votou como votou?». E eis que a «narrativa xenófoba», nos termos em que foi formulada, perde aderência à realidade:

4. De facto, para metade (49%) dos eleitores do «Leave», a principal razão para votar Brexit decorre da perda de soberania política no contexto da pertença à UE. Um argumento bastante mais relevante que o da imigração, associado a apenas um terço desses eleitores (e não necessariamente relacionado com sentimentos xenófobos). Por seu turno, constata-se que a parcela mais relevante (43%) dos votantes no «Remain» não é propriamente entusiasta da UE. Apenas estima que os riscos e impactos decorrentes da saída são superiores aos da permanência. E que, para 31% dos apoiantes do «Remain», sair significa abdicar da situação de privilégio que o Reino Unido tem na UE, onde beneficia do acesso ao mercado único sem ter que submeter a Schengen nem às regras do Euro.

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Xenofobias há muitas

No Jornal Tornado

A saída do Reino Unido da União Europeia, ou a sua continuação, será o resultado de um exercício básico de democracia, essa coisa que está de tal maneira corrompida no espaço europeu que os senhores de Bruxelas até se esquecem de a invocar.

Ao invés, em vez de promoverem o esclarecimento sereno dos britânicos, patrocinam uma campanha de medo e mentiras onde avultam figuras desacreditadas como o presidente dos Estados Unidos, o conspirador e golpista internacional George Soros através do seu Grupo Internacional de Crise (destruição da Jugoslávia, criação do Kosovo, golpe fascista na Ucrânia e outras coisas equivalentes) e o inimitável Tony Blair – será impossível resumir as suas malfeitorias, mas bastará recordar a sangria do Iraque baseada numa comprovada aldrabice.

Enfim, são todos muito boas recomendações para um Reino Unido dentro da União.

O ambiente de pressão é de tal ordem que um cidadão comum quase terá que pedir desculpa para dizer que não virá mal nenhum ao mundo se o Reino Unido sair da União Europeia, entidade em implosão.

O grau de desmantelamento é tal que Bruxelas e o colaboracionista David Cameron em Londres fabricaram uma União Europeia à la carte para os britânicos, a qual, bem à medida do primeiro-ministro inglês, é racista e xenófoba.

Não foi ele que qualificou os refugiados e imigrantes como “uma praga”, levando Bruxelas atrás de si, o que nesta matéria nada tem de difícil? A partir de agora qualquer país da União pode reclamar um estatuto especial para si, ameaçando com a saída. Será uma simples questão de coragem política.

Alega-se: do lado do Brexit estão os fascistas britânicos. Pois estão. E quem está ao lado dos fascistas ucranianos, polacos, húngaros, eslovacos, estonianos, lituanos, croatas, kosovares, turcos com quem a NATO e a União Europeia anda nas palminhas?

Os fascistas estão em todo o lado na Europa, porque os dirigentes da Europa lhes estendem as mãos, uns por oportunismo, outros por convicção. Quando se der o alerta geral provavelmente será tarde.

Com ou sem Brexit, a União Europeia está a cavar um pouco mais da sua sepultura. Enquanto isso, fortalecem-se os sinais, em todo o mundo, de que o neoliberalismo, como estado supremo do capitalismo, necessita cada vez mais de sistemas políticos autoritários para maximizar os proveitos da sua anarquia financeira.

Isto é, o mercado verdadeiramente livre sente ainda como estorvo o pouco que resta de democracia. Por isso o fascismo ressurge em cada canto, por ser o infalível garante da equação exploração máxima igual a lucro máximo.

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O Brexit

Há muito a escrever e a dizer sobre o referendo, com todos os lados com a sua razão desde os populistas ao elitistas passando pelos xenófobos e pelos euro-evangelistas – sim, todos têm razão nalguma coisa nesta questão, como a ausência de uma clara dicotomia esquerda-direita evidencia. Vou tentar salienta os meus pensamentos sobre a matéria, após o facto.

Durante vários meses não seria capaz de dizer o que preferia, quanto mais qual deveria ser a opção dos britânicos.  Estando de fora e com algum desconhecimento sobre o funcionamento interno do Reino Unido, contínuo sem ter a certeza de qual a melhor opção para os britânicos – não concordo de todo com os argumentos contra a imigração nem contra as obrigações para com a união europeia, mas não consigo ver um bom futuro para os britânicos em qualquer das situações. Nem souberam os defensores da Europa apresentar esse futuro, falando apenas no lado mau da saída sem apresentar pontos positivos da UE. É também preciso não esquecer que o referendo nada tem de vinculativo e que o que os eleitores dizem sobre a Europa raramente tem qualquer importância.

Resta-me falar como um europeu em geral, e como português (obrigado a opções económicas patéticas) em particular, e sexta-feira não pude resistir a ficar contente com o resultado da mesma forma que fiquei contente na última eleição nacional: com alguma, mas muita pouca renovada esperança. A verdade é que o RU nunca pertenceu muito à Europa e teve sempre regras à parte, tendo obtido novas excepções recentemente em questões fundamentais – se o objectivo é federalizar a Europa, o RU nunca o deixaria, tendo  feito sempre tudo para impedir uma maior união. Além disso, tem sido cada vez mais controlado pelo seu sistema financeiro e contribuído fortemente para as reformas neo-liberais europeias, bem como para a proliferação da fuga fiscal.

O que sobra para o resto da Europa é perceber o seu caminho. A resposta normal é continuar como se nada se tivesse passado e ignorar as vozes dos seus cidadãos, mas isso já não é mais possível: se os partidos do poder não apresentam luz ao fim do túnel da Grande Recessão, os cidadãos escolhem a primeira alternativa possível, seja bem pensada ou não, porque o desconhecido deixa de ser temido face à devastação do poder de compra dos 99%. Ou apresentam rapidamente uma revolução palpável e credível aos cidadãos ou estes não terão alternativa a usar o voto (e eventualmente a violência) para causar o fim do autoritarismo dos iluminados.

Assim, o Brexit terá como consequência acelerar uma de duas coisas: ou o surgimento de uma verdadeira reforma democrática europeia ou então o fim da moeda única e de outros tratados que em nada têm beneficiado os cidadãos europeus. Qualquer uma das duas já vem tarde, embora assim talvez possamos ter o CETA e o TTIP como primeiras vítimas. A resposta de Merkel em convocar meia dúzia de lideres europeus para decidir o passo seguinte não indicia que haja alguma intenção de ouvir os cidadãos europeus, porque o que já não é aceitável por ninguém é a criação de mais um grupo de tecnocratas incompetentes sem mandato democrático para controlar mais aspectos da vida de 500 milhões de pessoas.

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As palas sociais da Europa

Um grande artigo sobre o falhanço social da Europa no Social Europe

The Commission’s latest so-called Country Specific Recommendations on strengthening the European economy show a slightly greater emphasis on social issues: a welcome (if inadequate) shift, in trade union eyes. This translates into more flexibility on budget deficits, and recognition of the importance of education and training, quality public services and access to affordable childcare.

The Commission also identifies some of the worst examples of workers’ exploitation, such as the abuse of fixed-term employment contracts in Poland (one of the highest proportions in the EU), the lack of social protection for self-employed people in the Netherlands, or the seven million ‘mini-jobs’ in Germany.

And yet the underlying narrative remains the same old story. Despite opposition from the European Trade Union Confederation (ETUC) and national unions, the message is still: austerity, structural reforms and deregulation.

This approach has already brought precarious jobs, lower wages, lack of investment and growing inequality. It has also undermined collective bargaining and social dialogue, even though these are known to be a vital ingredient in successful economies. The Commission is once more pushing for the decentralisation of bargaining and meddling in the role of employers and trade unions to agree on wages and working conditions.

It is not a lack of flexibility that is damaging EU labour markets, but the escalation in precarious work, fixed-term, involuntary part-time contracts and bogus self-employment. The recommendations fail to tackle the growing share of contracts of less than one month in France, for example, or job insecurity in Cyprus, where almost 95% of workers on temporary contracts want permanent employment – choosing instead to attack the cost of labour.

[…]

The ETUC was disappointed to see the Commission renewing its attack on higher minimum wages, especially in France and Portugal, and failing to encourage wage growth in countries where statutory minimum rates are still too low. Our research shows that in Italy and the Nordic countries, where minimum wages are set by collective agreement, there are fewer low-wage workers. We want a minimum wage of 60% of the national median, which would benefit 16% of EU workers, but so far only France and Luxembourg have achieved this.

[…]

According to research by the European Trade Union Institute (ETUI), the only countries where real wages have outstripped productivity gains by more than 2% since 2014 are Hungary and the Baltic States. By favouring sector or company-level rather than national productivity as the benchmark, the Commission risks increasing national wage inequalities.

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