Category Archives: Desunião Europeia

O assassinato da Europa

F. William Engdhl, In GlobalResearch, 12/11/2016, Tradução por Estátua de Sal)

O hesitante projeto dos EUA, conhecido como Trans-Pacific Trade Partnership ou Trans-Atlantic Trade and Investment Partnership, é pouco mais do que Mussolini em esteróides. As centenas de corporações mais poderosas ficarão formalmente acima da lei nacional se formos estúpidos o suficiente para eleger políticos corruptos que aprovem tal disparate. No entanto, poucos analisaram com rigor o efeito que está a ter a cedência da soberania monetária sob o regime do Euro.

[…]

Delors derrubou o princípio estabelecido pelo francês Charles de Gaulle, princípio que De Gaulle designava por “Europa das Pátrias”. A visão de De Gaulle da Comunidade Económica Européia – então seis nações, incluindo a França, a Alemanha, a Itália e o Benelux – era que haveria reuniões periódicas dos primeiros-ministros das seis nações do Mercado Comum. Nessas reuniões, entre chefes de Estado eleitos, as políticas seriam formuladas e as decisões tomadas. Uma assembleia eleita por membros de parlamentos nacionais reveria as ações dos ministros. De Gaulle considerava a burocracia de Bruxelas como um órgão administrativo puramente técnico, subordinado aos governos nacionais. A cooperação devia basear-se na “realidade” da soberania do Estado. A aquisição supranacional de poder sobre nações individuais da CEE era anátema para De Gaulle, e com razão. Se o é para os indivíduos, assim também o é para as nações – a autonomia é básica e as fronteiras importam.

O Ato Único de Delors pretendeu derrubar a Europa das Pátrias através de reformas radicais na CEE com base na ideia destrutiva de que as diversas nações, com diversas histórias, culturas e diversas línguas, poderiam eliminar fronteiras e tornar-se uma espécie de ersatz, Estados Unidos da Europa, conduzidos do topo por burocratas não eleitos em Bruxelas. Trata-se essencialmente de uma visão corporativista, ou fascista do estilo Mussolini, de uma burocracia europeia não-democrática e não responsável que controla as populações arbitrariamente, respondendo apenas à influência corporativa, à pressão, à corrupção.

Foi uma agenda desenvolvida pelas maiores multinacionais da Europa, cuja organização de lobby era o European Roundtable of Industrialists (ERT), o influente grupo de lobby das grandes multinacionais europeias (onde se entra apenas por convite pessoal), como a suíça Nestle, a Royal Dutch Shell, BP, Vodafone, BASF, Deutsche Telekom, ThyssenKrupp, Siemens e outras gigantes multinacionais européias. O ERT, sem surpresa, é o principal lobby que em Bruxelas promove a assinatura do tratado comercial, TTIP, com Washington.

[…]

O tratado de criação de uma união monetária foi assinado numa conferência da CEE de 1992 em Maastricht, na Holanda, após a unificação da Alemanha. A França e a Itália, apoiadas pela Grã-Bretanha de Margaret Thatcher, forçaram a sua assinatura, ultrapassando as dúvidas alemãs, para “conter o poder de uma Alemanha unificada”. A imprensa britânica conservadora censurava a Alemanha por ser um potencial “Quarto Reich” emergente conquistando a Europa economicamente, ainda que não militarmente. Ironicamente, isso é o que, de facto, emergiu das estruturas do Euro hoje. Devido ao Euro, a Alemanha domina economicamente os 19 países da zona do Euro.

[…]

Os burocratas da UE têm um nome bonito para este desfasamento entre os funcionários não eleitos do BCE que controlam o destino económico dos 19 estados membros com 340 milhões de cidadãos da chamada Zona Euro. Designam-no por “déficit democrático”. Esse déficit cresceu de forma gigantesca desde a crise financeira e bancária global de 2008 e aumento de importância do não-soberano Banco Central Europeu.

[…]

A criação da moeda única em 1992 colocou os Estados-Membros do Euro numa camisa-de-forças económica. O valor da moeda não pode ser alterado para impulsionar as exportações nacionais durante os períodos de recessão económica como os registados desde 2008. O resultado foi que a maior potência industrial da Zona Euro, a Alemanha, beneficiou do Euro estável, enquanto as economias mais fracas na periferia da UE, e até mesmo a França, suportaram conseqüências catastróficas devido à rigidez da taxa de câmbio do Euro.

[…]

Actualmente, de acordo com o Eurostat, a indústria representa 14,1% do valor acrescentado bruto total francês. Em 1995, era de 19,2%. Na Alemanha é de 25,9%. O mais impressionante foi o colapso da indústria automobilística francesa, outrora vibrante. Apesar de a produção mundial de automóveis ter quase duplicado de 1997 para 2015 de 53 milhões para 90 milhões de veículos por ano, enquanto a Alemanha aumentou a sua produção automóvel em 20% de 5 para 6 milhões, desde a entrada da França no Euro em 2002, a produção automóvel francesa caíu quase metade, de quase 4 milhões para menos de 2 milhões.

[…]

O bail-in, apesar de parecer melhor do que resgate pago pelos contribuintes, na verdade, exige que os depositantes de um banco sejam expoliados dos seus depósitos para “resgatar” um banco falido, se Bruxelas ou o não eleito Eurogrupo determinarem tal apropriação dos depósitos, a qual é necessária se os detentores de acções e obrigações do banco e outros credores não foram capazes de fazer face às perdas. Este confisco foi aplicado nos bancos do Chipre em 2013 pela UE. Os depositantes com mais de € 100.000 perderam 40% de seu dinheiro.

Se você é um depositante, digamos, do Deutsche Bank, estando em queda as ações deste, como têm estado, além dos problemas legais que ameaçam a sua existência, recusando-se o governo alemão a ouvir falar de resgate e deixando o banco numa situação de bail-in potencial, você pode ter certeza que cada depositante com uma conta acima de € 100.000 vai levantar o seu dinheiro e transferi-lo para outros bancos, agravando a crise do Deutsche Bank. Em consequência, todos os restantes depositantes ficam vulneráveis a um bail-in como o que foi aplicado pelo Eurogrupo aos bancos do Chipre.

[…]

Em 1992, quando os bancos suecos entraram em insolvência devido a uma bolha do imobiliário que rebentou, o Estado entrou em cena criando o Securum, um banco de resgate mau/bom. Os bancos falidos foram temporariamente nacionalizados. Empréstimos imobiliários tóxicos no valor de milhares de milhões foram colocados na empresa estatal, Securum, o banco dito mau. Os diretores dos bancos viciados em aplicações financeiras de alto risco foram demitidos. Os bancos nacionalizados, sem o fardo dos empréstimos ruins, foram autorizados, sob administração estatal, a retomar os empréstimos e regressaram aos lucros antes de serem reprivatizados à medida que a economia melhorava. O imobiliário improdutivo tornou-se novamente rentável à medida que economia foi recuperando ao longo de vários anos, e após cinco anos, o Estado pôde vender os ativos obtendo um lucro líquido e desativando a Securum. Os contribuintes não foram sobrecarregados.

[…]

A Zona Euro não tem autoridade orçamental central, pelo que essas soluções não podem ser implementadas. Os problemas do sistema bancário estão apenas a ser resolvidos pelas autoridades monetárias, através da política insana do BCE de taxas de juro negativas, o chamado Quantitative Easing, em que o BCE compra milhares de milhões de euros de dívida corporativa e de dívida desonesta sem fim à vista e, em consequência das baixas taxas de juro, tornando as seguradoras e os fundos de pensões insolventes.

A resposta não é certamente a que propôs o cleptocrático George Soros e outros, ou seja, dar ao super-estado não eleito de Bruxelas o poder fiscal central para emitir Eurobonds. A única solução possível, longe de destruir as economias de toda a Zona Euro na próxima crise de solvência bancária europeia, é desmantelar o Monstro Frankenstein chamado União Monetária Europeia com o seu BCE e a moeda comum.

O conjunto dos países da Zona do Euro a 19 não formam aquilo que os economistas chamam “zona monetária ótima”, nunca o foi. Os problemas económicos da Grécia, da Itália ou mesmo da França são muito diferentes dos da Alemanha, de Portugal ou da Espanha.

[…]

E sobre isso, só posso dizer que ele estava certo. E hoje, a asserção ainda é mais verdadeira. O Euro e o Banco Central Europeu estão a assassinar a Europa tão eficazmente como a Segunda Guerra Mundial, sem bombas e sem escombros.

Leave a Comment

Filed under "Liberais" a funcionar, Austeridade, Desunião Europeia, Guerra de Classes

Quando tudo o que se discorda é populismo

Via Ladrões de Bicicletas

Resumindo: no editorial de hoje do Público, assinado por Diogo Queiroz de Andrade, a decisão de Juncker foi má porque a pôs à consideração dos representantes dos povos locais. Foi má porque ficou preso de decisões “populistas” (entenda-se, de acordo com a vontade dos povos). Foi má porque criou um precedente que porá de lado o TTIP. Foi má porque, ao fazer valer a decisão dos povos, a União Europeia deixa de ser um “parceiro credível”…  Então perderam-se tantos meses a negociar – diga-se: sem dar cavaco a ninguém! – e agora só porque os povos não querem, perde-se tudo…?

Esta gentinha devia pensar no que significa desprezar a opinião dos cidadãos e impor o que lhes apetece. Se calhar preferiam um regime como o Chinês ou o Norte-Coreano, lá não há “populismo”.

Leave a Comment

Filed under Desunião Europeia, Guerra de Classes, Mérdia

No fundo, é só isto

Ricardo Paes Mamede no Ladrões de Bicicletas

Depois de cinco anos de degradação social, as lideranças europeias entendem que Portugal precisa de prosseguir com a redução dos direitos sociais e laborais, ameaçando com a possibilidade de sanções financeiras caso isso não se verifique.

[…]

Segundo as regras em vigor, quando um país é atingido por um choque económico significativo, sejam quais forem as razões desse choque, não lhe resta outra alternativa senão agravar a recessão, aumentando o desemprego, a emigração e a destruição das capacidades produtivas – como sabemos por experiência própria.

As regras em vigor também obrigam as economias a ser mais flexíveis, ou seja, a facilitar os despedimentos e a reduzir os direitos sociais. Dizem os defensores desta lógica que o euro só é viável se as economias forem flexíveis. Dizem também que se essa flexibilidade existir, todos os países beneficiarão com a integração económica e monetária.

Esta lógica, porém, ignora um facto básico: os países da União Europeia têm estruturas produtivas profundamente distintas e níveis de desenvolvimento muito desiguais. Não é por se tornarem ainda mais flexíveis, ou por adoptarem políticas orçamentais rigorosas, que as economias mais frágeis vão conseguir lidar com aquelas diferenças, sem terem de sujeitar as suas populações a um sofrimento prolongado.

[…]
Estas diferenças implicam que as políticas económicas da União Europeia que interessam a uns países não interessam necessariamente aos outros. E as políticas que têm vindo a ser seguidas raramente são as que mais interessam a países como Portugal.

Pensemos em algumas opções decisivas que foram tomadas pela União Europeia desde a viragem do século:

• o alargamento a Leste
• os acordos de comércio e investimento com as economias emergentes da Ásia
• ou a política de Euro forte

Estas opções foram muito favoráveis para países com estruturas económicas mais robustas. Porém, tiveram efeitos devastadores em países como Portugal.

O mesmo se verifica com as principais medidas que foram tomadas nos tempos mais recentes – o Tratado Orçamental, a União Bancária, a imposição das chamadas “reformas estruturais”. Todas elas têm tornado a União Europeia anda mais desigual.

Na verdade, para muitos interesses económicos a divergência entre países da União Europeia não constitui um problema, pelo contrário. É do interesse das empresas multinacionais dos países mais ricos da União Europeia manter os salários baixos nos países da periferia: isso permite-lhes produzir a custos baixos dentro do continente europeu; além disso, como bem sabemos, leva muitos trabalhadores qualificados a fugir das periferias (onde não encontram emprego) para as economias centrais, que beneficiam assim de mão-de-obra qualificada que não tiveram de formar.

Também para os grupos financeiros dos países mais ricos da União Europeia interessa manter as periferias num estado permanente de crise. Como se sabe, quando há incerteza os investidores internacionais fogem das economias mais frágeis em direcção às mais fortes. Isto é hoje bem visível, com o valor dos bancos do sul da Europa a cair a pique, enquanto os países mais ricos atraem cada vez mais capitais, conseguindo até financiar-se a taxas de juro negativas.

Aqueles que defendem as regras em vigor afirmam que elas permitirão à União Monetária funcionar sem grandes sobressaltos no futuro. Mas o que temos de perceber é que a ausência de sobressaltos na zona euro não garante a melhoria do bem-estar para todas as populações europeias.

Pelo contrário: a imposição das regras em vigor na União Europeia tem como resultado a redução da coesão económica e social – exactamente o contrário do que nos disseram que a União Europeia pretendia ser.

E é precisamente em nome dos valores da solidariedade e da coesão na Europa, que devemos rejeitar a ameaça de sanções a Portugal, bem como as regras em que elas se baseiam.

Leave a Comment

Filed under Austeridade, Desiconomia, Desunião Europeia, Psicopatia

E a parva é a Catarina?

Catarina Martins:

“A Comissão Europeia nunca previu sanções para países com desequilíbrios comerciais, a Alemanha tem vários excedentes comerciais e nunca sofreu sanções por causa disso. Nem sequer deixou que se regulasse qual era o tipo de sanções para casos iguais ao seu”, prosseguiu Catarina.

“Não devemos aceitar as sanções. Não podemos ser sancionados por uma política que os eleitores já sancionaram nas urnas”, reforçou a coordenadora do Bloco, apontando responsabilidades ao PSD, PS e CDS pelo “tremendo erro” quando os seus eurodeputados votaram em Estrasburgo as regras que permitem as sanções, e no parlamento português ratificaram o Tratado Orçamental. E voltou a defender que no caso da aplicação de sanções seja convocado “um referendo para perguntar a quem vive neste país se quer mesmo viver neste regime de sanções”.

A coordenadora bloquista saudou a proposta do PCP da realização de uma conferência intergovernamental para acabar com o Tratado Orçamental. “Mas o problema é saber se temos aliados numa conferência intergovernamental em que se senta Merkel, Hollande e Rajoy. O importante é que em cada país se pergunte a quem cá vive o que quer desta Europa”, defendeu.

“Esta Europa já não promete o nivelamento por cima, afirma-se claramente como o lugar onde os estados grandes dominam e os estados pequenos sofrem”, prosseguiu Catarina, defendendo que “a Europa não tem sentido se disser que em Portugal não pode haver emprego ou Estado Social”. “Se Portugal não souber defender a sua economia, não haverá recuperação de rendimentos. Se aceitarmos que a Europa funciona sem democracia, então o que estamos aqui a fazer?”, questionou.

A responsabilidade dos partidos da direita no apoio às sanções foi outro dos temas focados nesta entrevista online dos leitores do esquerda.net. Catarina Martins lembrou que o Partido Popular Europeu – que integra PSD e CDS – “é o mais forte na Europa”. “Era interessante perguntar a Assunção Cristas, que defende que não deve haver sanções, continuará no PPE se houver sanções. Ou ao PS se continua a achar que foi uma boa decisão apoiar todos os tratados que colocam Portugal na posição em que está”.

Leave a Comment

Filed under Desiconomia, Desunião Europeia

Portugal como campo de batalha

Ricardo Paes Mamede no Ladrões de Bicicletas

A direita europeia, em particular a alemã, tem uma visão sobre o que deve ser a União Europeia.[…] Isto passa, nomeadamente, por: abolir fronteiras, impor uma política de concorrência comum, gerir o comércio externo a partir de Bruxelas, privatizar as empresas públicas, criar uma moeda única gerida centralmente.

Há aqui um problema, porém. É que os países participantes têm situações económicas e estruturas produtivas muito distintas. Isso significa que as políticas económicas que são mais adequadas para uns poderão não sê-lo para outros. Senão forem criados mecanismos específicos para lidar com estas assimetrias, as economias mais frágeis tendem a ser afectadas por períodos longos de recessão económica e crise social, que facilmente se transformam em divergência económica e social permanente.

[…]

No seio da UE, porém, não existem condições para criar mecanismos semelhantes de transferências orçamentais permanentes para fazer face às diferenças de partida entre Estados Membros. Os movimentos nacionalistas nos países do Centro e Norte da Europa afirmam-se, em particular, pela oposição a tais transferências – e poucos governos estão dispostos a desafiar essa oposição neste momento, mesmo que quisessem (e muitos nunca o quiseram). As diferentes preferências nacionais quanto a aspectos centrais como a protecção social, os direitos laborais e o papel do Estado na economia, constituirão sempre um entrave à criação de uma união orçamental robusta no seio da UE.

Como se pode, então, preservar o mercado interno e a moeda única na UE de modo a lidar com as enormes assimetrias no seu seio, sem poder recorrer a transferências orçamentais relevantes? Para a visão dominante na UE, a resposta é clara: as economias mais frágeis têm de estar preparadas para lidar com os piores cenários sem dependerem dos restantes países. Isso significa reduzir o endividamento público e privado de forma permanente, e tornar as suas economias mais flexíveis. Por outras palavras, é preciso reduzir os salários, as pensões, as transferências sociais, os direitos sociais e laborais, de modo aumentar as exportações, atrair o investimento, reduzir a despesa pública e, desta forma, tornar os países mais auto-suficientes.

Posto nestes termos, a estratégia até soa lógica. O problema está nas suas implicações. Na prática, como sabemos por experiência própria, a tentativa de combater as crises através da redução dos rendimentos de trabalho torna as recessões económicas mais profundas e prolongadas. No imediato, isto agrava ainda mais a situação das finanças públicas. Para além disso, a crise afasta o investimento e destrói competências (nomeadamente por vias do desemprego e da emigração), levando a que os supostos benefícios da estratégia seguida tardem a surgir.

[…]

O problema é que cada vez menos cidadãos europeus aceitam esta conclusão. Em países onde a crise se arrasta – com fraca criação de emprego, generalização da pobreza e perda permanente dos direitos sociais e laborais – cada vez mais pessoas se questionam: se é este o preço que se paga pelo mercado interno e pela moeda única, para que queremos afinal a integração económica europeia?

[…]

Manter-se do lado de quem defende soluções que arrastam a crise e destroem direitos sociais e laborais é suicidário para partidos que deveriam defender exactamente o oposto. Perante isto, a social-democracia europeia vai tentando passar a mensagem de que é precisa “mais europa” e “mais união política”. Mas, até agora, todos os “avanços” na integração europeia – o Semestre Europeu, o Tratado Orçamental, a União Bancária, a condicionalidade associada ao financiamento pelo BCE e pelo Mecanismo Europeu de Estabilidade – contribuíram para reforçar a pressão no sentido da perda de rendimentos e de direitos sociais. E às populações dos países em crise interessa muito mais a evolução das suas condições de vida a cada momento do que ideias mais ou menos abstractas sobre o futuro da UE.

[…]

Esta é a luta que está hoje em curso na UE. Portugal não é o centro do debate: Portugal é um dos campos de batalha entre duas visões políticas sobre como lidar com os dilemas europeus no imediato. Em abstracto, poderia ser a França ou a Itália. Mas é mais fácil atacar pelo elo mais fraco. Esse, de momento, somos nós. Porém, apesar de não ser o fulcro da questão, os riscos para o nosso país são mais que muitos.

Ao contrário do que a direita portuguesa quer fazer crer, não são as orientações de política económica do actual governo que põem Portugal em risco. A actual maioria governamental revela um compromisso claro com a consolidação das contas públicas e com a prossecução de políticas que promovem o crescimento económico a prazo.

[…]

A sucessão de declarações de responsáveis alemães e dos seus aliados sobre a aplicação de sanções a Portugal tem ser interpretada à luz do segundo acima factor referido. Tais declarações visam sinalizar uma maior predisposição de quem manda na Europa para “deixar cair” Portugal. O resultado esperado é um aumento dos custos de financiamento que, caso se agravem, só têm dois resultados possíveis: o incumprimento no pagamento da dívida pública (com consequências imprevisíveis) ou o recurso a um segundo resgate (que levaria à imposição das medidas consideradas adequadas para o país).

[…]

A questão é: qual é o interesse do país? Deve Portugal arriscar um confronto com as forças que hoje dominam na Europa? Se isso desembocar num novo resgate, o que ganhamos com isso? E qual o preço que devemos estar dispostos a pagar para o evitar?

[…]

– o país tem de estar preparado para todas as eventualidades, incluindo os vários cenários que decorrem de um resultado indesejável do conflito actualmente em curso na UE (em vez de se limitar a aguardar esperançosamente que as coisas corram pelo melhor).

1 Comment

Filed under Austeridade, Desiconomia, Desunião Europeia, Guerra de Classes, Psicopatia

Xenofobia também é isto

Esquerda.net

“Eu já digo há muito tempo e não percebo. Por que é que os jovens que procuram formação no sul da Europa não veem para a Alemanha? Na Alemanha as empresas estão desesperadas à procura de formandos e inglês qualquer pessoa pode aprender. Isto era possível”, afirmou Schäuble ao canal ARD, quando questionado sobre o que pensa fazer para combater o elevado desemprego jovem na Europa, e em particular nos países do Sul.

“Podia fazer-se isto de forma muito mais flexível. Fazemos grandes anúncios europeus, mas não conseguimos [trazer] umas dezenas de milhares de jovens de países do sul da Europa, onde o desemprego jovem é elevado”, prosseguiu Schäuble, referindo-se aos contratos de formação – semelhante aos estágios com formação profissional – que estão generalizados na Alemanha.

“Eles [jovens] têm que ser mais móveis e flexíveis. Viajam pelo mundo inteiro, os estudantes estudam por toda a Europa. Por que é que não podemos fazer o mesmo com os formandos?”, questionou Schäuble, lembrando que as empresas alemãs têm falta de mão de obra para estes contratos de formação, que são remunerados com valores abaixo dos contratos de trabalho.

1 Comment

Filed under Austeridade, Desiconomia, Desunião Europeia, Guerra de Classes

Os efeitos do Brexit foram manifestamente exagerados

Índice Bolsista do Reino Unido após o #Brexit

Índice Bolsista do Reino Unido após o #Brexit

Não quero com isto dizer ou sequer implicar que não haverá consequências económicas negativas para a opção dos Ingleses, mas a economia é o que é e não o que os amadores dizem que é.

2 Comments

Filed under Desiconomia, Desunião Europeia

A Nova União Europeia™ é tão surda e democrática como a anterior

No Dinheiro Vivo

O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, já elaborou o plano para a criação de uma “Nova União Europeia”, em resposta à decisão do Reino Unido de abandonar a União Europeia.

De acordo com jornal económico alemão “Handesblatt”, o plano desenhado pelo todo-poderoso ministro de Angela Merkel apresenta “planos concretos” para a reforma da União Europeia, incluindo a monitorização por uma entidade independente de todas as políticas orçamentais implementadas por cada Estado-Membro, ao invés da monitorização ser feita por um membro da Comissão Europeia.

Com o título de “Iniciativas posteriores ao referendo do Reino Unido”, o plano alemão para a UE passa pela implementação de várias medidas, “incluindo a possibilidade de vetar orçamentos nacionais que violem as regras de estabilidade e dívida”, aponta o “Handesblatt”, que consultou o documento.

Além da monitorização das políticas públicas de cada país por uma entidade independente e do poder de veto sobre os orçamentos de cada país quando a UE entender que podem violar as regras comunitárias, o jornal alemão aponta igualmente que as reformas idealizadas por Schäuble incluem ainda a separação da autoridade de supervisão bancária da esfera do Banco Central Europeu e o reforço dos poderes do Mecanismo Europeu de Estabilização, na zona euro.

O que vale é que as regras são boas e não causaram estagnação na zona euro durante 16 anos, nem puseram vários países dentro da estagnação secular. Viva as regras.

EDIT: Resta saber se os orçamentos da Alemanha (que não cumprem as regras) seriam aprovados.

Leave a Comment

Filed under Austeridade, Desiconomia, Desunião Europeia

A revolução possível contra a elite

Do 365 Forte

A redução do voto no Brexit a uma questão de xenofobia ou provincianismo (o que não quer dizer que não sejam elementos relevantes) é não perceber as dinâmicas sociais: de acordo com as sondagens, foram os denominados “perdedores da globalização” – a classe trabalhadora com pouca instrução – que votaram em maior número no Leave.

Na ausência de um discurso de esquerda, a direita populista de Le Pen, passando pelo Boris ao Trump, são os principais beneficiados deste movimento de insurreição contra as elites no poder (da direita à esquerda da terceira via). Esta camada de população insurgiu-se contra as promessas que durante anos lhes venderam: a globalização e os mercados abertos seriam vantajosos para todos; a austeridade iria promover a confiança e, por via disso, o crescimento económico; o aumento da produtividade tornaria todos mais ricos, e não apenas uma pequena percentagem da população.

Na realidade, assistem a uma estagnação dos salários (no Reino Unido o rendimento médio dos trabalhadores está 7,5% mais baixo que em 2009), desemprego, deslocalização da indústria para o estrangeiro (pela primeira vez o estrangeiro não precisa de ser emigrante para se constituir numa ameaça ao seu posto de trabalho) e uma desigualdade crescente dentro dos países.

Neste contexto, a UE, enquanto veículo que intensifica a globalização, é um dos principais alvos dos políticos que procuram agradar àquele eleitorado. E esta é a ironia do projecto europeu porque a UE é, ao mesmo tempo, uma das poucas instituições que, caso assim queira, pode reduzir os efeitos nefastos da globalização. Será que ainda vamos a tempo? Ou será que – como as primeiras reacções ao referendo parecem prever –  a UE, parafraseando Orwell, vai escolher a estupidez e manter tudo como está?

 

Leave a Comment

Filed under Austeridade, Desiconomia, Desunião Europeia, Guerra de Classes

E depois do Brexit?

No Esquerda.net

E, no entanto, é difícil, porque tudo dá a entender que a reacção da populaça inglesa foi ‘emocional’ e não ‘racional’, como dizia hoje de manhã à BBC uma eurodeputada búlgara.  O entrevistador ainda tentou dizer-lhe, “Mas olhe que as pessoas que votaram, pensaram muito nisso e não são estúpidas.”  Mas a eurodeputada não queria ouvir, já sabia que eles eram uns ignaros e que quem tinha razão era ela.  Vamos mas é vingar-nos desses ingleses, sugeria—opinião, aliás, generalizada na Alemanha e abertamente expressa por esse senhor Juncker (para quem leu história, o nome prussiano do homem até dá calafrios, caramba!).

[…]

Por isso, talvez valha a pena perceber mesmo quem é que votou em quê.  Na Irlanda do Norte, os irlandeses católicos votaram Remain, os unionistas Leave.  Qual a surpresa?  Afinal, apesar da crise, os irlandeses são um dos povos que mais tem ganho com a UE.  A Irlanda é hoje um dos instrumentos mais perversos das políticas europeístas de desvio de fundos públicos para o grande capital internacional.  As grandes empresas estão todas sediadas lá e pagam praticamente nada de impostos e a UE não só deixa que isso se passe como parece até promover esse escândalo.  Ao menos assim, os pobres dos irlandeses sempre se vão arranjando.  Esta, aliás, é uma das coisas que leva os ingleses a votar por sair.

Depois a Escócia.  Votaram todos Remain.  Claro!  Eles conseguiram proteger-se através do seu parlamento regional dos piores excessos perpetrados por estes governos sucessivos (primeiro, os governos militaristas do Blair e depois os governos liderados por este grupo de milionários de Eton, funcionários bancários, cujos pais todos fazem parte da lista dos Panama Papers).  Por isso, a Escócia conseguiu manter intacto o seu estado social, a educação superior é subsidiada pelo governo, protegeram o seu serviço nacional de saúde, reformaram os outros serviços públicos.  Vive-se hoje muito melhor na Escócia do que em Inglaterra—todos os escoceses se honram disso: faz frio, mas vive-se melhor.  Para eles, a UE é a maneira que eles têm de se proteger do assalto dos Tories da City londrina.  Eles não podem dar-se ao luxo de serem governados por essa gente e então votam pela Europa, mesmo até os membros escoceses dos próprios Tories (o partido escocês fez a campanha a favor de Remain).

Em Londres (que constitui uma percentagem importante da população do Reino Unido) o voto foi por ficar.  Claro, não só eles são os que ganham com este governo de financeiros discípulos da Thatcher, como são uma população multinacional que não se identifica com o resto do país.

Restam as cidades menores e os campos em Inglaterra e no País de Gales, onde eles têm sofrido um regime de austeridade quase tão desumano como o português: aí, eles vêem o serviço nacional de saúde e os outros serviços públicos a deteriorar-se diariamente; vêem o desemprego sistémico como forma de vida a longo prazo; e os que querem estudar na universidade chegam à vida adulta com uma dívida absolutamente escravizante que os impede de comprar a sua própria casa e que os obriga a alugar as casas ao grande capital estrangeiro, que tem vindo a comprar bairros inteiros por essa Inglaterra fora (como aliás também tem feito em Portugal com o apoio do nosso governo e da UE).

A propósito: na Alemanha, o ensino superior continua a ser subsidiado integralmente pelo estado; quase não há desemprego jovem; o serviço nacional de saúde é exemplar; e existem políticas para compra de casa.  Os outros não podem, não é?  Interessante.

[…]

Objectivamente, nem os imigrantes são assim tantos, nem criminosos como o inglês comum pensa, nem são os imigrantes que lhes estão a fazer mal.  Mas também é verdade que, sem esses imigrantes, o regime de trabalho instável, mal pago, sem direitos sociais—o regime alemão—a que eles estão a ser sujeitos não teria sido implementável.  São os pobres dos imigrantes e refugiados que fazem de penetras para boicotar os direitos historicamente adquiridos pelos trabalhadores e servir os interesses do grande capital internacional que quer proletarizar os europeus.  Não será isso que está por detrás de toda essa história recente de refugiados na Alemanha?  Será que até os alemães já viram?  As tristes vítimas de guerras, que alguém está a subsidiar, são usadas para promover o subemprego na Europa no interesse desses mesmos que promovem essas guerras.  Nunca jamais os ingleses irão perdoar isso ao Blair.  A tentativa dele entrar nesta disputa do Brexit foi mesmo muito humilhante, como não podia deixar de ser.  Nem os de direita lhe perdoam e muito menos os de esquerda.

[…]

O que é que nos surpreende, então, na conclusão que os ingleses tiraram disto tudo, e que tanto irrita os alemães?  É que eles não parecem estar a pensar como a gente quer que pensem: direita/esquerda; fraternidade europeia; melhores condições para a prosperidade dos mercados financeiros.  Nada disso os move.  Estão, pelo contrário a pensar sem política, a partir do que lhes interessa a eles, de como querem viver.  A Europa, para eles, é um lugar mais quente onde se faz férias, a esquerda há muito que afinal era mentira e a prosperidade financeira da City a eles só lhes tem lixado a vida.  Todos os argumentos económicos sobre como o Brexit ia ser mau para as finanças, passaram-lhes ao lado completamente.  Quais finanças, perguntam, as deles lá em casa?  Não estão as finanças deles pior do que sempre estiveram desde os anos 60?  Assim pensam as pessoas que não estão politizadas institucionalmente.  É normal, não?

[…]

E nós, então?  O problema que o Brexit nos põe a nós, portugueses, é o mesmo que põe a todos os outros europeus das margens.  Que projecto europeu é este?  Temos mesmo é que aprender com os ingleses e começar a pensar a partir de onde estamos, deixando de lado os cansados chavões políticos que os Passos Coelhos nos querem vender e que nos têm escravizado.  Não vamos pensar naquilo a que temos direito, vamos pensar naquilo que queremos obter.  Melhor assim, não?  Afinal, que é isso de ter direitos num covil de ladrões?

Tal como os ingleses das províncias, os portugueses também querem um governo mais justo, ensino mais qualificado e menos caro, menor corrupção financeira, mais serviço nacional de saúde, mais impostos para os muitos ricos, melhor distribuição do rendimento, melhores instrumentos de pequena poupança que não absorvam e cancelem as poupanças que a classe média tenta fazer , etc.  Depois dizem-nos: mas isso é impossível porque o capital internacional não vai deixar.  E aí é que chega o momento de pensar na Europa.

[…]

O primeiro trabalho a fazer, dir-se-ia, é começar a olhar para o lado: quer dizer, começar a fazer amigos nas periferias deste mundo; começar a falar com os que sofrem tanto quanto nós, perante este jugo odiento que constitui a forma como a elite financeira internacional vai acumulando mais e mais capital e vai abafando a economia mundial com esse capital subempregue—que só sabe gastar em coisas vergonhosas como as guerras que os Salafitas Saudis andam a fazer contra o mundo civilizado na Turquia, na Síria, no Paquistão, na Líbia e no Afeganistão.

Portugal vai ter que encontrar um novo projecto e esse projecto não pode ser alemão, porque os alemães já demonstraram em três guerras militares e mais uma guerra financeira, que não sabem governar nos interesses dos seus súbditos.  Já quanto aos franceses … só consigo pensar na Linha Maginot quando ouço o Presidente deles a dizer ainda mais vacuidades perante as crises que se acumulam à sua porta.

Leave a Comment

Filed under Austeridade, Desiconomia, Desunião Europeia, Guerra de Classes