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A revolução possível contra a elite

Do 365 Forte

A redução do voto no Brexit a uma questão de xenofobia ou provincianismo (o que não quer dizer que não sejam elementos relevantes) é não perceber as dinâmicas sociais: de acordo com as sondagens, foram os denominados “perdedores da globalização” – a classe trabalhadora com pouca instrução – que votaram em maior número no Leave.

Na ausência de um discurso de esquerda, a direita populista de Le Pen, passando pelo Boris ao Trump, são os principais beneficiados deste movimento de insurreição contra as elites no poder (da direita à esquerda da terceira via). Esta camada de população insurgiu-se contra as promessas que durante anos lhes venderam: a globalização e os mercados abertos seriam vantajosos para todos; a austeridade iria promover a confiança e, por via disso, o crescimento económico; o aumento da produtividade tornaria todos mais ricos, e não apenas uma pequena percentagem da população.

Na realidade, assistem a uma estagnação dos salários (no Reino Unido o rendimento médio dos trabalhadores está 7,5% mais baixo que em 2009), desemprego, deslocalização da indústria para o estrangeiro (pela primeira vez o estrangeiro não precisa de ser emigrante para se constituir numa ameaça ao seu posto de trabalho) e uma desigualdade crescente dentro dos países.

Neste contexto, a UE, enquanto veículo que intensifica a globalização, é um dos principais alvos dos políticos que procuram agradar àquele eleitorado. E esta é a ironia do projecto europeu porque a UE é, ao mesmo tempo, uma das poucas instituições que, caso assim queira, pode reduzir os efeitos nefastos da globalização. Será que ainda vamos a tempo? Ou será que – como as primeiras reacções ao referendo parecem prever –  a UE, parafraseando Orwell, vai escolher a estupidez e manter tudo como está?

 

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E depois do Brexit?

No Esquerda.net

E, no entanto, é difícil, porque tudo dá a entender que a reacção da populaça inglesa foi ‘emocional’ e não ‘racional’, como dizia hoje de manhã à BBC uma eurodeputada búlgara.  O entrevistador ainda tentou dizer-lhe, “Mas olhe que as pessoas que votaram, pensaram muito nisso e não são estúpidas.”  Mas a eurodeputada não queria ouvir, já sabia que eles eram uns ignaros e que quem tinha razão era ela.  Vamos mas é vingar-nos desses ingleses, sugeria—opinião, aliás, generalizada na Alemanha e abertamente expressa por esse senhor Juncker (para quem leu história, o nome prussiano do homem até dá calafrios, caramba!).

[…]

Por isso, talvez valha a pena perceber mesmo quem é que votou em quê.  Na Irlanda do Norte, os irlandeses católicos votaram Remain, os unionistas Leave.  Qual a surpresa?  Afinal, apesar da crise, os irlandeses são um dos povos que mais tem ganho com a UE.  A Irlanda é hoje um dos instrumentos mais perversos das políticas europeístas de desvio de fundos públicos para o grande capital internacional.  As grandes empresas estão todas sediadas lá e pagam praticamente nada de impostos e a UE não só deixa que isso se passe como parece até promover esse escândalo.  Ao menos assim, os pobres dos irlandeses sempre se vão arranjando.  Esta, aliás, é uma das coisas que leva os ingleses a votar por sair.

Depois a Escócia.  Votaram todos Remain.  Claro!  Eles conseguiram proteger-se através do seu parlamento regional dos piores excessos perpetrados por estes governos sucessivos (primeiro, os governos militaristas do Blair e depois os governos liderados por este grupo de milionários de Eton, funcionários bancários, cujos pais todos fazem parte da lista dos Panama Papers).  Por isso, a Escócia conseguiu manter intacto o seu estado social, a educação superior é subsidiada pelo governo, protegeram o seu serviço nacional de saúde, reformaram os outros serviços públicos.  Vive-se hoje muito melhor na Escócia do que em Inglaterra—todos os escoceses se honram disso: faz frio, mas vive-se melhor.  Para eles, a UE é a maneira que eles têm de se proteger do assalto dos Tories da City londrina.  Eles não podem dar-se ao luxo de serem governados por essa gente e então votam pela Europa, mesmo até os membros escoceses dos próprios Tories (o partido escocês fez a campanha a favor de Remain).

Em Londres (que constitui uma percentagem importante da população do Reino Unido) o voto foi por ficar.  Claro, não só eles são os que ganham com este governo de financeiros discípulos da Thatcher, como são uma população multinacional que não se identifica com o resto do país.

Restam as cidades menores e os campos em Inglaterra e no País de Gales, onde eles têm sofrido um regime de austeridade quase tão desumano como o português: aí, eles vêem o serviço nacional de saúde e os outros serviços públicos a deteriorar-se diariamente; vêem o desemprego sistémico como forma de vida a longo prazo; e os que querem estudar na universidade chegam à vida adulta com uma dívida absolutamente escravizante que os impede de comprar a sua própria casa e que os obriga a alugar as casas ao grande capital estrangeiro, que tem vindo a comprar bairros inteiros por essa Inglaterra fora (como aliás também tem feito em Portugal com o apoio do nosso governo e da UE).

A propósito: na Alemanha, o ensino superior continua a ser subsidiado integralmente pelo estado; quase não há desemprego jovem; o serviço nacional de saúde é exemplar; e existem políticas para compra de casa.  Os outros não podem, não é?  Interessante.

[…]

Objectivamente, nem os imigrantes são assim tantos, nem criminosos como o inglês comum pensa, nem são os imigrantes que lhes estão a fazer mal.  Mas também é verdade que, sem esses imigrantes, o regime de trabalho instável, mal pago, sem direitos sociais—o regime alemão—a que eles estão a ser sujeitos não teria sido implementável.  São os pobres dos imigrantes e refugiados que fazem de penetras para boicotar os direitos historicamente adquiridos pelos trabalhadores e servir os interesses do grande capital internacional que quer proletarizar os europeus.  Não será isso que está por detrás de toda essa história recente de refugiados na Alemanha?  Será que até os alemães já viram?  As tristes vítimas de guerras, que alguém está a subsidiar, são usadas para promover o subemprego na Europa no interesse desses mesmos que promovem essas guerras.  Nunca jamais os ingleses irão perdoar isso ao Blair.  A tentativa dele entrar nesta disputa do Brexit foi mesmo muito humilhante, como não podia deixar de ser.  Nem os de direita lhe perdoam e muito menos os de esquerda.

[…]

O que é que nos surpreende, então, na conclusão que os ingleses tiraram disto tudo, e que tanto irrita os alemães?  É que eles não parecem estar a pensar como a gente quer que pensem: direita/esquerda; fraternidade europeia; melhores condições para a prosperidade dos mercados financeiros.  Nada disso os move.  Estão, pelo contrário a pensar sem política, a partir do que lhes interessa a eles, de como querem viver.  A Europa, para eles, é um lugar mais quente onde se faz férias, a esquerda há muito que afinal era mentira e a prosperidade financeira da City a eles só lhes tem lixado a vida.  Todos os argumentos económicos sobre como o Brexit ia ser mau para as finanças, passaram-lhes ao lado completamente.  Quais finanças, perguntam, as deles lá em casa?  Não estão as finanças deles pior do que sempre estiveram desde os anos 60?  Assim pensam as pessoas que não estão politizadas institucionalmente.  É normal, não?

[…]

E nós, então?  O problema que o Brexit nos põe a nós, portugueses, é o mesmo que põe a todos os outros europeus das margens.  Que projecto europeu é este?  Temos mesmo é que aprender com os ingleses e começar a pensar a partir de onde estamos, deixando de lado os cansados chavões políticos que os Passos Coelhos nos querem vender e que nos têm escravizado.  Não vamos pensar naquilo a que temos direito, vamos pensar naquilo que queremos obter.  Melhor assim, não?  Afinal, que é isso de ter direitos num covil de ladrões?

Tal como os ingleses das províncias, os portugueses também querem um governo mais justo, ensino mais qualificado e menos caro, menor corrupção financeira, mais serviço nacional de saúde, mais impostos para os muitos ricos, melhor distribuição do rendimento, melhores instrumentos de pequena poupança que não absorvam e cancelem as poupanças que a classe média tenta fazer , etc.  Depois dizem-nos: mas isso é impossível porque o capital internacional não vai deixar.  E aí é que chega o momento de pensar na Europa.

[…]

O primeiro trabalho a fazer, dir-se-ia, é começar a olhar para o lado: quer dizer, começar a fazer amigos nas periferias deste mundo; começar a falar com os que sofrem tanto quanto nós, perante este jugo odiento que constitui a forma como a elite financeira internacional vai acumulando mais e mais capital e vai abafando a economia mundial com esse capital subempregue—que só sabe gastar em coisas vergonhosas como as guerras que os Salafitas Saudis andam a fazer contra o mundo civilizado na Turquia, na Síria, no Paquistão, na Líbia e no Afeganistão.

Portugal vai ter que encontrar um novo projecto e esse projecto não pode ser alemão, porque os alemães já demonstraram em três guerras militares e mais uma guerra financeira, que não sabem governar nos interesses dos seus súbditos.  Já quanto aos franceses … só consigo pensar na Linha Maginot quando ouço o Presidente deles a dizer ainda mais vacuidades perante as crises que se acumulam à sua porta.

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Xenofobias há muitas

No Jornal Tornado

A saída do Reino Unido da União Europeia, ou a sua continuação, será o resultado de um exercício básico de democracia, essa coisa que está de tal maneira corrompida no espaço europeu que os senhores de Bruxelas até se esquecem de a invocar.

Ao invés, em vez de promoverem o esclarecimento sereno dos britânicos, patrocinam uma campanha de medo e mentiras onde avultam figuras desacreditadas como o presidente dos Estados Unidos, o conspirador e golpista internacional George Soros através do seu Grupo Internacional de Crise (destruição da Jugoslávia, criação do Kosovo, golpe fascista na Ucrânia e outras coisas equivalentes) e o inimitável Tony Blair – será impossível resumir as suas malfeitorias, mas bastará recordar a sangria do Iraque baseada numa comprovada aldrabice.

Enfim, são todos muito boas recomendações para um Reino Unido dentro da União.

O ambiente de pressão é de tal ordem que um cidadão comum quase terá que pedir desculpa para dizer que não virá mal nenhum ao mundo se o Reino Unido sair da União Europeia, entidade em implosão.

O grau de desmantelamento é tal que Bruxelas e o colaboracionista David Cameron em Londres fabricaram uma União Europeia à la carte para os britânicos, a qual, bem à medida do primeiro-ministro inglês, é racista e xenófoba.

Não foi ele que qualificou os refugiados e imigrantes como “uma praga”, levando Bruxelas atrás de si, o que nesta matéria nada tem de difícil? A partir de agora qualquer país da União pode reclamar um estatuto especial para si, ameaçando com a saída. Será uma simples questão de coragem política.

Alega-se: do lado do Brexit estão os fascistas britânicos. Pois estão. E quem está ao lado dos fascistas ucranianos, polacos, húngaros, eslovacos, estonianos, lituanos, croatas, kosovares, turcos com quem a NATO e a União Europeia anda nas palminhas?

Os fascistas estão em todo o lado na Europa, porque os dirigentes da Europa lhes estendem as mãos, uns por oportunismo, outros por convicção. Quando se der o alerta geral provavelmente será tarde.

Com ou sem Brexit, a União Europeia está a cavar um pouco mais da sua sepultura. Enquanto isso, fortalecem-se os sinais, em todo o mundo, de que o neoliberalismo, como estado supremo do capitalismo, necessita cada vez mais de sistemas políticos autoritários para maximizar os proveitos da sua anarquia financeira.

Isto é, o mercado verdadeiramente livre sente ainda como estorvo o pouco que resta de democracia. Por isso o fascismo ressurge em cada canto, por ser o infalível garante da equação exploração máxima igual a lucro máximo.

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As palas sociais da Europa

Um grande artigo sobre o falhanço social da Europa no Social Europe

The Commission’s latest so-called Country Specific Recommendations on strengthening the European economy show a slightly greater emphasis on social issues: a welcome (if inadequate) shift, in trade union eyes. This translates into more flexibility on budget deficits, and recognition of the importance of education and training, quality public services and access to affordable childcare.

The Commission also identifies some of the worst examples of workers’ exploitation, such as the abuse of fixed-term employment contracts in Poland (one of the highest proportions in the EU), the lack of social protection for self-employed people in the Netherlands, or the seven million ‘mini-jobs’ in Germany.

And yet the underlying narrative remains the same old story. Despite opposition from the European Trade Union Confederation (ETUC) and national unions, the message is still: austerity, structural reforms and deregulation.

This approach has already brought precarious jobs, lower wages, lack of investment and growing inequality. It has also undermined collective bargaining and social dialogue, even though these are known to be a vital ingredient in successful economies. The Commission is once more pushing for the decentralisation of bargaining and meddling in the role of employers and trade unions to agree on wages and working conditions.

It is not a lack of flexibility that is damaging EU labour markets, but the escalation in precarious work, fixed-term, involuntary part-time contracts and bogus self-employment. The recommendations fail to tackle the growing share of contracts of less than one month in France, for example, or job insecurity in Cyprus, where almost 95% of workers on temporary contracts want permanent employment – choosing instead to attack the cost of labour.

[…]

The ETUC was disappointed to see the Commission renewing its attack on higher minimum wages, especially in France and Portugal, and failing to encourage wage growth in countries where statutory minimum rates are still too low. Our research shows that in Italy and the Nordic countries, where minimum wages are set by collective agreement, there are fewer low-wage workers. We want a minimum wage of 60% of the national median, which would benefit 16% of EU workers, but so far only France and Luxembourg have achieved this.

[…]

According to research by the European Trade Union Institute (ETUI), the only countries where real wages have outstripped productivity gains by more than 2% since 2014 are Hungary and the Baltic States. By favouring sector or company-level rather than national productivity as the benchmark, the Commission risks increasing national wage inequalities.

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FMI, esses perigosos comunistas

Nicolau Santos, in Expresso diário via Estátua de Sal

O artigo (*) saiu na edição de junho de uma revista trimestral do FMI e, em suma, os seus autores sustentam que dois dos maiores “amores” dos neoliberais – a liberalização dos movimentos de capitais e a consolidação orçamental – em vez de promoverem crescimento, aumentaram a probabilidade de crises financeiras, fizeram disparar a desigualdade e prejudicaram significativamente o nível e a duração do crescimento económico.

São quatro as conclusões dos autores, resumidas num artigo de Jorge Nascimento Rodrigues, disponível no Expresso Diário:

Primeira: os benefícios em termos de crescimento económico são bastante difíceis de encontrar quando se analisa um grupo alargado de países e não um ou outro caso de estudo.

Segunda: os custos em termos de aumento da volatilidade e da frequência de crises financeiras – ou só bancária, ou só cambial, ou “gémeas”, de coincidência dos dois tipos – são evidentes; as probabilidades aumentaram significativamente.

Terceira: os custos em termos de desigualdade são proeminentes, particularmente ao fim de cinco anos.

Quarta: essa desigualdade prejudicou o nível e a sustentabilidade do crescimento, havendo, agora, muita evidência desse ciclo negativo. Os autores dizem que “os decisores, e as instituições como o FMI que os aconselham, devem guiar-se não pela fé, mas pela evidência do que funcionou”. E a evidência empírica revela o que manifestamente não funcionou.

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Sobre as divulgações dos Panama Papers

Um post interessante no Ladrões de Bicicletas, publicado no ínicio das revelações.

Tenho tido discussões sobre a “enorme fuga de informação”, nomeada como “Panama Papers”. O meu espanto foi descobrir que o Expresso publicou – sem se espantar – uma nota do consórcio internacional de jornalistas de investigação em que os “maus da fita” eram – apenas – aqueles que são, sobretudo, os principais inimigos dos Estados Unidos ou que estejam ao largo do mundo ocidental.

[…]

Mas sempre foi assim. Regresse-se, por exemplo, aos anos 20, após a Grande Depressão.


Durante esse tempo, em que bancos ruíram, linhas de crédito secaram e os governos optaram por políticas rígidas de “dinheiro seguro”, tudo isso propiciou a “reciclagem” de dinheiro conseguido em actividades ilegais.

O crime expandiu-se para o jogo e para a droga e a organização criminosa precisou de criar o seu próprio sistema financeiro. Desde que, em 1931, a Internal Revenue Service (IRS), nos Estados Unidos, conseguiu apanhar Al Capone, essa necessidade tornou-se premente. E a alternativa baseou-se em praças financeiras conhecidas.

Esses fluxos são, por exemplo, descritos por R.T. Taylor, um professor Universidade McGill, de Montreal, formado pela Universidade de Toronto, London Scholl of Economics e King’s College de Cambridge. No seu famoso livro Hot Money (1987), fala-se como em 1932, Meyer Lansky, aliado de Al Capone, levou a sua primeira remessa para a banca suíça, para criar uma conta bancária em nome do governador do Luisiana que tinha autorizado o empório das slot-machines. E que a partir daí esse foi o trajecto habitual dos dinheiros ilegais. Uma parte seguia pelo norte, via Canadá.

Mas sobretudo nos anos 50/60, a maioria dos fluxos passou a seguir via sul, através de Miami, ou Bahamas, para serem localmente depositados ou transferidos para a Suíça, às vezes com passagem também pelo Liechtenstein. A partir daí, poderiam voltar “lavados” para os Estados Unidos. Assumiam a forma de falsos empréstimos a Lansky, cujos juros pagos — por Lansky — tinham a vantagem de abater lucros das actividades reais.

[…]

Um dos conselheiros de Henry Kissinger, Richard Allen, aparece ligado à criação de uma zona offshore nos Açores. O seu sonho era criar uma república offshore como plataforma das grandes multinacionais. Tentou inclusivamente que o governo norte-americano arranjasse forma de, já pós-25 de Abril de 1974, a criar nos Açores, através de um referendo sobre a sua independência face a Portugal, ou mesmo apoiar a independência unilateral das ilhas. Mas o projecto ruiu. Seis anos depois surgiria a zona franca da Madeira.

[…]

O ponto de viragem na opinião política ocorreu com a crise de 2008/09 e com o papel que a banca teve nessa crise. Da reunião dos G20, em Abril de 2009, em Londres, saiu um documento anunciando uma guerra aberta aos paraísos fiscais, o G20 Tax Haven Crackdown. Basicamente, determinou-se que cada paraíso fiscal teria de assinar pelo menos 12 acordos de troca de informação fiscal.

Em apenas oito meses, mais de 300 acordos foram assinados. Mas a eficácia desta medida tem sido questionada em artigos académicos.

Primeiro, até ao início deste ano, o número de tratados assinados já ia em 590, dos quais 555 em que, pelo menos, um dos assinantes foi um país com um paraíso fiscal. Parece um número considerável, mas para que haja o efeito de uma rede à escala mundial —– sem buracos —– ter-se-ia de assinar cerca de 11 mil acordos. Ou seja, ainda falta a maior parte.

[…]

Apesar disso, os “buracos” na rede mantêm-se. Primeiro, os efeitos da troca automática de informação entre bancos e autoridades fiscais não funciona porque os governos de 18 dos 52 paraísos fiscais não assinaram a directiva, sendo sempre possível movimentar activos para esses paraísos. Segundo, porque a directiva apenas atinge os bens directos. Se um rendimento for detido por uma fundação ou trust sediado num país não aderente à directiva —– que podem servir de biombo para um beneficiário que é cidadão da UE —, isso permitirá novamente a evasão. Em terceiro lugar, o conceito de rendimento tributado é limitado: apenas se aplica a cidadãos (não a firmas) e não abrange uma gama vasta de investimentos financeiros.

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It’s mercantilism, stupid

Os meus conhecimentos económicos não são suficientes para saber se a analogia é correcta, mas a comparação da austeridade na Europa com o mercantilismo é interessante:

By contrast, we find little reporting of the considerably stronger spread of EU mercantilism, the witch’s familiar of fiscal austerity. Adam Smith defined mercantilism as government policy that seeks to “restrain imports and encourage exports”. It is as applicable to current EU austerity programmes as it was to Smith’s world three centuries ago.

In the 18th century governments used direct restrictions on imports and other market interventions in an attempt to achieve permanent trade surpluses. Governments implement the 21st century version of mercantilism with different policy instruments. In the place of direct restrictions on trade we now see real wage reductions, manipulation of business taxes, and currency depreciation through loose monetary policy (so-called quantitative easing and negative interest rates).

This “market friendly” version of mercantilism allows the ideologues to maintain the fiction of “free trade” while pursuing the mercantilist goal of persistent trade surpluses. This perverse inversion of rhetoric seeks to justify recovery in Europe based on beggar-thy-neighbour policies.

[…]

How times have changed. The seizure of policy debates by advocates of austerity has rehabilitated trade surpluses from mercantilist delusion to competitive virtue. For the theologists of austerity the national equivalent of household prudence means consuming and investing less than a country produces. Contrary to common sense the new economic theology considers this squandering of national resources as “saving”.

[…]

The table below shows two growth rates for Germany and five other euro zone countries over eight years, 2008-2015. The five are the infamous PIIGS, countries that showed varying degrees of resistance to European Commission pressure to undertake fiscal austerity in exchange for assistance to ailing financial institutions. The first column of numbers reports the usual measure of growth, gross domestic product. The second subtracts each country’s trade balance from its GDP. This might be called “domestic income”, what is left for residents after adding in imports and subtracting exports.

The last column is the difference between the two, which in all cases is negative and except for Germany substantial. The difference for Greece is the largest, overall GDP declining at an annual rate of 3.8%, while domestic income contracted at almost 6%. Ireland provides a striking case, especially because the EC austerity ideologues hold it up as a case of successful recovery. Even for this star pupil of austere recovery, the income available to Irish residents declined.

 

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Economista defende que Portugal deve ter uma posição de força na defesa dos interesses nacionais

Mais um perigoso comunista a querer problemas (ionline):

Mas fala-se da necessidade de capital da CGD e de o Estado ter de abdicar de parte da propriedade do banco.

Não é boa solução. Ou é público ou é privado. Público com capital privado não funciona. Se for necessário, o Estado deve reforçar o capital da CGD.

E se houver constrangimentos europeus nesse domínio?

Portugal deve insistir. Não há nada nos tratados que o impeça e Portugal deve defender os seus interesses.

Fazer um braço-de-ferro com Bruxelas?

Se necessário. Não podemos à partida pensar que, por haver algumas restrições da Direção-Geral da Concorrência, devemos deixar de defender os nossos interesses. Temos de o fazer e temos armas para isso, como os outros países.

[…]

Foi tudo muito rápido…

Como tinha sido, aliás, o BES. Isto não é forma de funcionar. As instituições comunitárias tomam decisões e pouco ou nada respondem, nem sequer pagam os custos. Nós é que pagamos.

Estamos a caminhar para um cenário em que os pequenos bancos tendem a desaparecer?

Diz-se que é essa a intenção do Banco Central Europeu. Mas porque tem o país de pagar essa ideia? Isso é fruto de não termos uma união monetária e de não termos um banco central verdadeiramente central. Temos uma agência de um banco central.

[…]

Sente-se defraudado com o processo de integração europeia?

Não me sinto defraudado porque já sabia que ia dar nisto. A Comunidade Económica Europeia era um bom projeto, fui a favor da nossa adesão e não estou nada arrependido. Mas a partir da moeda única transformou-se num grande risco de desagregação.

Vê mais riscos hoje do que há um ano ou dois, quando a questão da Grécia estava mais quente?

Quando vi a forma como se reagiu à crise grega, em 2010, como infelizmente tinha poucas expectativas, foi a confirmação de que não havia solidariedade suficiente para manter um projeto tão ambicioso. A degradação vai sendo progressiva até vermos no que dá.

É por isso que continua a defender a saída do euro?

Não temos futuro dentro da zona euro. Sou um adversário muito grande da moeda única porque põe em causa três aspetos que, para mim, são fundamentais: a independência nacional; a democracia, porque reduz brutalmente as opções de política económica e social ao dispor de um país; e o próprio Estado social, porque os seus maiores inimigos são o desemprego e a estagnação económica. Põe em causa tudo o que, para mim, é valioso na política.

Portugal foi dos mais prejudicados com a moeda única?

Sim. Não tinha à partida condições para pertencer à zona euro. Aliás, é curioso, mas isso sabia-se. Nós recebemos muito dinheiro na altura justamente para contrabalançar as dificuldades que iríamos ter, o que mostra que foi uma opção estratégica incompreensível.

[…]

O euro é então reversível?

Acabará por ser, se calhar não da melhor maneira. É um projeto de uma densidade e gravidade tal que deveria ter havido muito mais cuidado. Em Portugal, ter-se bloqueado um referendo sobre a entrada no euro foi um desastre.

[…]

Os partidos mais à esquerda defendem a saída do euro, mas é realista pensar que pode haver abertura para isso do lado do governo?

A questão dos bancos foi muito importante para aumentar o ceticismo das pessoas – se nós não estivéssemos no euro, a solução para os bancos poderia não ser tão penalizante como foi. Isso foi mais uma machadada no apoio à zona euro. Mas a verdade é que nenhum dos problemas está resolvido, na Grécia muito menos, e portanto vamos ter uma evolução com certeza atribulada dentro da Europa. E na devida altura vamos ver como é que os partidos políticos reagem.

O Orçamento do Estado já entrou em vigor e foi a primeira vez que os partidos à esquerda se concertaram. O que achou das medidas aprovadas?

Não são más. A estratégia geral do Orçamento aproveitou a margem de manobra do petróleo baixo para fazer uma redistribuição, o que me parece bem. O OE tem sido muito criticado por não ser amigo do crescimento, mas a verdade é que os últimos Orçamentos não têm sido amigos do crescimento. Se este contribui para uma melhor redistribuição do rendimento, então cumpre uma missão.

[…]

Falta então um estímulo orçamental.

Isso já se sabe há décadas: a política monetária é útil para restringir a economia quando ela está sobreaquecida, deve mudar no sentido expansionista, mas só por si não garante a expansão da economia.

Faltaria então um plano de investimento à escala europeia, mais ambicioso do que o plano Juncker?

Sim. E pura e simplesmente admitir que haja financiamento monetário de défices públicos, como há nos EUA e no Reino Unido. O BCE já foi até ao limite do seu mandato – até há quem ache que já o excedeu –, mas a zona euro devia acabar com esse tabu. O BCE deveria comprar dívida pública diretamente aos Estados e fazê-lo sem juros, se necessário.

Há quem admita a possibilidade de serem usados instrumentos monetários pouco convencionais, como a entrega de dinheiro diretamente aos consumidores.

Tentou-se isso no Japão com vouchers para os consumidores gastarem, mas também não deu grande resultado. Mau não será, mas também não deu grande resultado. Então se se pode fazer isso, porque não se pode utilizar o financiamento monetário, que é mais eficaz? O problema a que estamos a assistir na zona euro é político, de poder.

Isto até já se pega aos ex-ministros de Cavaco. Como isto anda…

 

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A nova Europa

Vicenç Navarro no Esquerda.net

O sr. Timothy Geithner, secretário do Tesouro (equivalente ao ministro das Finanças) do governo federal dos Estados Unidos da América durante o mandato do Presidente Obama, escreveu recentemente nas suas memórias que lhe surpreendeu a atitude manifestada pelo Sr. Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças do governo alemão (presidido pela chanceler Angela Merkel), em relação ao governo grego nas negociações que então decorriam (em 2010) sobre a raiz do problema criado pela dívida pública que o Estado grego tinha acumulado, e que considerava de difícil resolução dada a incapacidade do governo em pagar aos seus credores.

[…]

Grande parte desta dívida grega procedia, como muito acertadamente havia descrito o Wall Street Journal num artigo de 10 de julho desse ano, 2010, (“The Submarine Deals That Helped Sink Greece”), dos enormes investimentos em equipamento militar feitos pelo governo grego. […] A Alemanha, por sua vez, era uma das maiores beneficiárias daquela situação.

Todavia, a reunião dos ministros das Finanças do G-7 não incluiu uma discussão sobre a dívida grega, mas um debate sobre como resolver a crise financeira que podia surgir devido à insolvência do Estado grego e a sua incapacidade em pagar a sua dívida. Esse debate centrou-se em duas posturas. Uma, a defendida pelo próprio Timothy Geithner, que defendia que o Banco Central Europeu interviesse, comprando – como faz o Banco Central dos Estados Unidos da América, o Federal Reserve Board, – dívida pública. Propunha assim que o Banco Central Europeu fosse o credor de última instância nos casos em que os Estados não conseguissem encontrar empréstimos no mercado financeiro. Segundo Geithner, era a maneira mais fácil para prevenir as crises financeiras.

No entanto, a sua surpresa foi ver que o ministro alemão não queria nem considerar esta alternativa, pois não queria resolver a crise. O que queria era utilizá-la para impor aos países periféricos, como a Grécia, as mudanças que o governo alemão desejava que fizessem e que solidificariam o poder central e hegemónico que a Alemanha tinha na Zona Euro. Como afirmou o ministro alemão, o Sr. Schaüble, “a crise não era uma ameaça, mas uma oportunidade”, uma oportunidade para disciplinar os países da Zona Euro (e em especial os que, como Grécia e Espanha – segundo Schaüble -, “tinham sido muito pouco disciplinas, gastando acima das suas possibilidades”).

Daí se deduzia o seu ênfase na austeridade (exigindo-lhes um deficit público zero – através do Tratado Orçamental – que praticamente proíbe os países de terem deficit público) e nas reformas estruturais (que constituem sobretudo as reformas laborais destinadas a reduzir os salários).

Estas reformas impostas pelo ministro alemão eram, na realidade, um ataque frontal às classes trabalhadoras (incluindo a alemã) dos países da Zona Euro. A redução dos salários (através das reformas laborais) e da proteção social (através dos cortes) eram os elementos chave de tais políticas, que eram nem mais nem menos que a velha luta de classes a nível continental, em que o mundo do capital (hegemonizado pelo capital financeiro) impunha os seus interesses perante o mundo do trabalho. E tal ataque justificou-se na necessidade de aumentar a competitividade, tendo a Alemanha como modelo a seguir. As famosas reformas Hertz levadas a cabo pelo chanceler social-democrata Schröder, e prosseguidas pelos governos Merkel, eram parte deste ataque e deterioraram muitíssimo as condições do mercado de trabalho alemão, condição para o seu êxito como país exportador.

[…]

A banca alemã, cujo porta-voz era e é, na prática, o Sr. Schäuble, o ministro das Finanças do governo Merkel, é o maior proponente desta estratégia, proposta pelo capital financeiro aliado com o capital produtivo exportador (este é o setor empresarial, muito centrado na manufatura de material de alto valor acrescentado (que significa tecnologia avançada) para o qual o ex-chanceler alemão, o Sr. Schröder, agora trabalha como empregado). O ideólogo da banca alemã é o Sr. Josef Ackermann, o Presidente do Deutsche Bank, (apresentado no ano 2011 pelo New York Times “como o banqueiro mais poderoso (e perigoso) da Europa”. O Sr. Ackerman é muito próximo da Sra. Angela Merkel e do Sr. Jean-Claude Trichet, que era então Presidente do Banco Central Europeu.

Tal banqueiro disse claramente, num discurso no Conselho Atlântico, que “o governo alemão sabia muito bem como resolver a crise (que era a proposta sugerida pelo Sr. Geithner), mas que não queria resolvê-la, pois o que era mais necessário agora era pressionar os países para que aceitassem o que o governo alemão estava a propor” (citado no artigo de Andrew Gavin Marshall, “Between Berlin and a Hard Place”, Z-Magazine, set. 2015, do qual extraio vários dados para este artigo), sublinhando que isso era necessário para que a Europa pudesse ser competitiva, sendo a Alemanha quem definia o significado de competitividade.

[…]

A dívida grega no ano 2010 era possuída pelos bancos alemães (68.000 milhões), franceses (43.000 milhões), italianos (38.000 milhões) e espanhóis (25.000 milhões). O primeiro resgate à Grécia foi, na realidade, para resgatar estes bancos, como reconheceu um antigo Presidente do Banco Central Alemão, o Sr. Karl Otto Pöhl, que afirmou que “o resgate à Grécia era na realidade um resgate aos bancos, e em especial aos bancos alemães e francês” (também podia ter acrescentado os bancos italianos e os espanhóis).

O segundo resgate à Grécia foi para que o Estado grego pudesse pagar os juros da dívida pública aos seus credores: a troika e os Estados que haviam comprado dívida pública aos bancos privados no primeiro resgate. Só uma minoria de todo dinheiro transferido para a Grécia nestes resgates (desde o primeiro resgate em 2010) foi para ajudar a Grécia. Os 90% foram para beneficiar instituições financeiras.

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Imperialismo é isto

Huffington Post ES

Una empresa alemana se hará con el control de los 14 aeropuertos regionales de Grecia como parte del acuerdo de rescate alcanzado por el Gobierno griego con sus acreedores.

El Ejecutivo heleno ha adjudicado al grupo alemán Fraport la gestión de estos aeropuertos, completando el proceso de privatización abierto hace un año, después de que el Consejo de Política Económica diera luz verde a esta operación el pasado 13 de agosto.

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Hace una semana, el Instituto para la Investigación Económica de Halle publicaba un estudio en el que aseguraba que Alemania se beneficia financieramente de la crisis griega por la caída del pago de intereses de la deuda alemana.

“El presupuesto equilibrado en Alemania se debe en gran parte al ahorro de intereses con motivo de la crisis de endeudamiento”, según esta investigación, de la que se desprende que Alemania ha logrado desde 2010 ahorros para el presupuesto nacional de 100.000 millones de euros, cantidad que representa más del 3% de su PIB, y que en parte está directamente relacionada con la crisis de Grecia.

Estos ahorros superan los costes de la crisis, incluso si Grecia no devuelve sus deudas completamente, costes que para Alemania ascenderían a 90.000 millones de euros.

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